quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Marie - A partida

Marie colocou as pesadas malas no chão. Empurrou a pesada porta e virou-se lentamente. Massageou as frágeis mãos. Teria que carregar parte de suas experiências vividas. Não tinha como deixá-las fora das malas. Não havia como recusá-las. No entanto, deixaria outras coisas para trás. Seguiria um novo caminho. Uma nova vida estava por vir. Levaria o necessário. O suficiente. Mas faltava um último olhar por aquela casa que seria abandonada em instantes.
Com os grandes e molhados olhos castanhos, fitou a casa em que havia vivido suas grandes experiências. Aquele lugar estava emaranhado dos segredos de Marie. E quem conseguiria viver num lugar que já estava definido como sendo do outro? O certo seria um ritual de fogo, pensou. Ela recomeçaria das cinzas longe dali. Jurou.
Tudo parecia adormecido naquela casa que seria abandonada em instantes. A própria Marie parecia estar num corpo dormente e estranho. O corpo sempre vivo e desperto agora parecia anestesiado. Talvez fosse uma forma de defesa para protegê-la e fazê-la despertar aos poucos para a realidade que a esperava lá fora, do outro lado do mundo.

Olhou os móveis que jaziam sob lençóis brancos. Conseguiu observar o sofá de tecido florido herdado da avó. Marie gostava de repousar naquele sofá. Lembrava da menina antiga guardada em sua memória que adorava ouvir histórias de mulheres e homens bons. Agora as flores do sofá pareciam ter murchado e o que se podia ver eram apenas alguns borrões vermelhos e brancos.
Continuou passeando seu olhos molhados por aquele espaço ainda seu. As persianas da varanda estavam entreabertas e deixavam vir uma fragrância de lírios trazida pelo vento, que soprava lá fora suavizando a despedida daquele lugar.Percebeu que havia esquecido de cobrir o quadro “Les Deux Chevals”. Logo aquela obra que mais gostava. Teria que adotar uma nova postura, pensou observando a figura altiva dos cavalos naquele quadro. Decidiu que seria mais corajosa, impetuosa e indomada. Passaria a ser mais firme como o andar das patas ágeis daqueles animais.
Sorriu. Enxugou o rosto. Levaria o quadro consigo. Colocou os óculos escuros, seu amigos inseparáveis. O chauffeur havia chegado para levá-la para bem longe dali.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Adele - O Urso Polar

Estava numa estrada deserta vagando sozinha, perdida em meio a espessa neblina. Havia apenas uma bruma densa, que invadia o seu horizonte. Adele andava pela estrada sem rumo e não conseguia enxergar por causa da intensa neblina que engolia a tudo com voracidade.
A chuva caía sob o seu corpo como finos véus que lhe impediam de enxergar com nitidez. Não sabia onde estava; sabia apenas que era tragada por uma força que vinha do útero da terra. A força atacava com violência e a jogava pelo chão.
Quando abriu os olhos, percebeu que um urso polar branco a observava com seus olhos negros, como se estivessem atraídos magneticamente a sua pessoa. Não havia para onde fugir. Lutar era inútil.
Num grande abraço, o urso conseguiu com sua grande pata esmagar os ossos de seu corpo. O grito de dor não saía da sua boca. Apenas um gemido surdo era emitido. A dor que sentia era tão grande que se parecia com uma broca perfurando o duro asfalto. Insensível. Lentamente. Quebrava o seu interior em pedaços, dilacerando a sua alma, rompendo intransigente as camadas superficiais de suas resistências. Era uma compressão forte no peito; o peso morto de um muro de concreto sobre ele. O sangue tingia o chão como um tapete vermelho de veludo. Sentia-se tão solitária quanto a lua no céu num dia ensolarado. Subjugada. Abandonada.
Tudo começou a perder os contornos e tornou-se um borrão indistinto. Um clarão intenso aparecia distante. Não conseguia enxergar. Abriu os olhos e viu-se sozinha no seu quarto. Na sua cama. Eram os raios de sol que entravam pela janela. Ainda restavam duas horas.Virou-se de lado e voltou a dormir.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Adele - O fruto proibido

Os fogos no céu anunciavam o novo ano que se iniciava. A maioria das pessoas contemplava maravilhada a explosão de cores no ar. Menos Adele.

Satisfeita, ela olhava o homem deitado ao seu lado, que dormia tranqüilamente. Observava atentamente os detalhes do seu corpo viril com uma ternura voraz. Analisava cada parte como se estivesse contemplando uma obra de arte. Um Apolo de carne e osso.

Sua pele branca era tão sedosa e aveludada que Adele tinha vontade de mordê-la infinitamente. Ela exalava um cheiro adocicado que a deixava extasiada.

Voltou a se deitar e ele instintivamente a envolveu num abraço acolhedor. Ela sentiu o contato dos cachos desalinhados e a maciez da barba dele no pescoço, o que lhe provocou cócegas como o roçar de penas no corpo.

Estava ainda embriagada do sumo quente que vinha da sua boca. Era um refresco para sua alma sedenta num dia de calor.

Os olhos dela brilharam e uma alegria a invadiu por dentro. Ele era a manga rosa que há tempos ela cobiçava e queria provar.