Marie colocou as pesadas malas no chão. Empurrou a pesada porta e virou-se lentamente. Massageou as frágeis mãos. Teria que carregar parte de suas experiências vividas. Não tinha como deixá-las fora das malas. Não havia como recusá-las. No entanto, deixaria outras coisas para trás. Seguiria um novo caminho. Uma nova vida estava por vir. Levaria o necessário. O suficiente. Mas faltava um último olhar por aquela casa que seria abandonada em instantes.
Com os grandes e molhados olhos castanhos, fitou a casa em que havia vivido suas grandes experiências. Aquele lugar estava emaranhado dos segredos de Marie. E quem conseguiria viver num lugar que já estava definido como sendo do outro? O certo seria um ritual de fogo, pensou. Ela recomeçaria das cinzas longe dali. Jurou.
Tudo parecia adormecido naquela casa que seria abandonada em instantes. A própria Marie parecia estar num corpo dormente e estranho. O corpo sempre vivo e desperto agora parecia anestesiado. Talvez fosse uma forma de defesa para protegê-la e fazê-la despertar aos poucos para a realidade que a esperava lá fora, do outro lado do mundo.
Olhou os móveis que jaziam sob lençóis brancos. Conseguiu observar o sofá de tecido florido herdado da avó. Marie gostava de repousar naquele sofá. Lembrava da menina antiga guardada em sua memória que adorava ouvir histórias de mulheres e homens bons. Agora as flores do sofá pareciam ter murchado e o que se podia ver eram apenas alguns borrões vermelhos e brancos.
Continuou passeando seu olhos molhados por aquele espaço ainda seu. As persianas da varanda estavam entreabertas e deixavam vir uma fragrância de lírios trazida pelo vento, que soprava lá fora suavizando a despedida daquele lugar.Percebeu que havia esquecido de cobrir o quadro “Les Deux Chevals”. Logo aquela obra que mais gostava. Teria que adotar uma nova postura, pensou observando a figura altiva dos cavalos naquele quadro. Decidiu que seria mais corajosa, impetuosa e indomada. Passaria a ser mais firme como o andar das patas ágeis daqueles animais.
Sorriu. Enxugou o rosto. Levaria o quadro consigo. Colocou os óculos escuros, seu amigos inseparáveis. O chauffeur havia chegado para levá-la para bem longe dali.