quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Adele - Quarta-feira de Cinzas

Enquanto as fantasias e máscaras se confundiam na multidão, a serpentina e o confete enfeitavam com suas cores as calçadas. E as risadas, as cantorias e batucadas enchiam de vida as ruas. Ainda havia resquícios do carnaval na cidade.

À medida que Adele caminhava em direção a praia, o barulho ia ficando mais distante. Só havia o som das ondas chicoteando o ar. Ali ela não seria incomodada.

Quando parou para olhar o mar, notou a presença de um rapaz não muito longe dela. Ele virou-se em sua direção e sorriu.

- Você está fugindo da multidão?
- Parece que não sou a única.
- É verdade.
- O mar estava me chamando, eu não podia recusar o seu convite.
- Acho que ele não vai se importar se tiver mais uma pessoa como companhia.


Os dois em silêncio contemplam a paisagem noturna. Alegre, Adele entra no mar e o convida a se juntar a ela. No entanto, um pouco tonta por causa da bebida, ela tropeça e cai. O jovem, que a observava atentamente, corre em seu socorro.

Uma onda mais forte o desequilibra e faz com que ele caia por cima dela. Ambos rolam pelo chão e começam a rir. Ao tentar levantá-la, ele toca no corpo dela com firmeza, ela finge não notar o movimento, mas os seus olhos não conseguem evitar o olhar intenso que ele transmite.

Num impulso, o rapaz vira-se para o lado dela e a agarra, como um animal ao ver carne. Apesar da resistência inicial da moça, ele beija-a com voracidade. A hesitação dela não demora muito a ceder, que aceita as carícias com volúpia.

Extasiada, a jovem inexperiente se entrega sem reservas aos ardis do lobo, que impaciente pela fome, devora a sua presa com violência. Ela sente uma dor atroz penetrar o seu âmago, como uma flor que é arrancada do asfalto. Uma mutilação e tortura interior.

Adele é iniciada no gesto de amor, enquanto os primeiros raios de sol aparecem no horizonte, iluminando as latas de cervejas e garrafas vazias espalhadas pelo chão.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Adele - O Mar e o Vento

O sol saudava a manhã nublada. As folhas das palmeiras se agitavam ao longe, enquanto soprava forte em direção ao mar. As águas balançavam ao sabor do vento, acompanhando os movimentos como numa grande dança.
Adele estava tão entretida construindo os seus castelos na areia que não percebera os movimentos da natureza ao seu redor. Quando o ar se escureceu repleto de nuvens de poeira, ela comprimiu os olhos e olhou para o céu. Havia uma escura cortina de chuva que se deslocava em sua direção, formando ondas cinzentas. Um uivo incessante encheu os seus ouvidos, enquanto o vento puxava suas roupas com dedos invisíveis. Logo, começou a chover e a chuva estava fria como gelo. Ela estava ensopada e tremendo, quando pensou em algo horrível.
A fúria do vendaval atingiu as muralhas do castelo como um golpe de martelo. Com um ataque violento, arrasou as entradas e aposentos reais. O vento lutou c/ a fortificação por um segundo, mas, com um último golpe, conseguiu vencê-lo. Adele respirou fundo.
Os castelos que ela construíra na areia foram destruídos pela força do vento. Restou apenas uma massa disforme no lugar.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Marie - A partida

Marie colocou as pesadas malas no chão. Empurrou a pesada porta e virou-se lentamente. Massageou as frágeis mãos. Teria que carregar parte de suas experiências vividas. Não tinha como deixá-las fora das malas. Não havia como recusá-las. No entanto, deixaria outras coisas para trás. Seguiria um novo caminho. Uma nova vida estava por vir. Levaria o necessário. O suficiente. Mas faltava um último olhar por aquela casa que seria abandonada em instantes.
Com os grandes e molhados olhos castanhos, fitou a casa em que havia vivido suas grandes experiências. Aquele lugar estava emaranhado dos segredos de Marie. E quem conseguiria viver num lugar que já estava definido como sendo do outro? O certo seria um ritual de fogo, pensou. Ela recomeçaria das cinzas longe dali. Jurou.
Tudo parecia adormecido naquela casa que seria abandonada em instantes. A própria Marie parecia estar num corpo dormente e estranho. O corpo sempre vivo e desperto agora parecia anestesiado. Talvez fosse uma forma de defesa para protegê-la e fazê-la despertar aos poucos para a realidade que a esperava lá fora, do outro lado do mundo.

Olhou os móveis que jaziam sob lençóis brancos. Conseguiu observar o sofá de tecido florido herdado da avó. Marie gostava de repousar naquele sofá. Lembrava da menina antiga guardada em sua memória que adorava ouvir histórias de mulheres e homens bons. Agora as flores do sofá pareciam ter murchado e o que se podia ver eram apenas alguns borrões vermelhos e brancos.
Continuou passeando seu olhos molhados por aquele espaço ainda seu. As persianas da varanda estavam entreabertas e deixavam vir uma fragrância de lírios trazida pelo vento, que soprava lá fora suavizando a despedida daquele lugar.Percebeu que havia esquecido de cobrir o quadro “Les Deux Chevals”. Logo aquela obra que mais gostava. Teria que adotar uma nova postura, pensou observando a figura altiva dos cavalos naquele quadro. Decidiu que seria mais corajosa, impetuosa e indomada. Passaria a ser mais firme como o andar das patas ágeis daqueles animais.
Sorriu. Enxugou o rosto. Levaria o quadro consigo. Colocou os óculos escuros, seu amigos inseparáveis. O chauffeur havia chegado para levá-la para bem longe dali.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Adele - O Urso Polar

Estava numa estrada deserta vagando sozinha, perdida em meio a espessa neblina. Havia apenas uma bruma densa, que invadia o seu horizonte. Adele andava pela estrada sem rumo e não conseguia enxergar por causa da intensa neblina que engolia a tudo com voracidade.
A chuva caía sob o seu corpo como finos véus que lhe impediam de enxergar com nitidez. Não sabia onde estava; sabia apenas que era tragada por uma força que vinha do útero da terra. A força atacava com violência e a jogava pelo chão.
Quando abriu os olhos, percebeu que um urso polar branco a observava com seus olhos negros, como se estivessem atraídos magneticamente a sua pessoa. Não havia para onde fugir. Lutar era inútil.
Num grande abraço, o urso conseguiu com sua grande pata esmagar os ossos de seu corpo. O grito de dor não saía da sua boca. Apenas um gemido surdo era emitido. A dor que sentia era tão grande que se parecia com uma broca perfurando o duro asfalto. Insensível. Lentamente. Quebrava o seu interior em pedaços, dilacerando a sua alma, rompendo intransigente as camadas superficiais de suas resistências. Era uma compressão forte no peito; o peso morto de um muro de concreto sobre ele. O sangue tingia o chão como um tapete vermelho de veludo. Sentia-se tão solitária quanto a lua no céu num dia ensolarado. Subjugada. Abandonada.
Tudo começou a perder os contornos e tornou-se um borrão indistinto. Um clarão intenso aparecia distante. Não conseguia enxergar. Abriu os olhos e viu-se sozinha no seu quarto. Na sua cama. Eram os raios de sol que entravam pela janela. Ainda restavam duas horas.Virou-se de lado e voltou a dormir.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Adele - O fruto proibido

Os fogos no céu anunciavam o novo ano que se iniciava. A maioria das pessoas contemplava maravilhada a explosão de cores no ar. Menos Adele.

Satisfeita, ela olhava o homem deitado ao seu lado, que dormia tranqüilamente. Observava atentamente os detalhes do seu corpo viril com uma ternura voraz. Analisava cada parte como se estivesse contemplando uma obra de arte. Um Apolo de carne e osso.

Sua pele branca era tão sedosa e aveludada que Adele tinha vontade de mordê-la infinitamente. Ela exalava um cheiro adocicado que a deixava extasiada.

Voltou a se deitar e ele instintivamente a envolveu num abraço acolhedor. Ela sentiu o contato dos cachos desalinhados e a maciez da barba dele no pescoço, o que lhe provocou cócegas como o roçar de penas no corpo.

Estava ainda embriagada do sumo quente que vinha da sua boca. Era um refresco para sua alma sedenta num dia de calor.

Os olhos dela brilharam e uma alegria a invadiu por dentro. Ele era a manga rosa que há tempos ela cobiçava e queria provar.