quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Adele - A Caçada

Para Adele, pensar é sentir. Sentir tudo através dos sentidos. Os seus pensamentos, que eram frutos de suas sensações, estavam concentrados na fruição plena de todas as coisas. Enquanto eles não estivessem saciados, ela não estaria satisfeita.
Naquele momento, estava faminta, seu corpo gritava insaciável por carne humana. Apesar da fome, ela sabia que precisava escolher muito bem a sua vítima, não provaria qualquer alimento. Podia sentir no ar o aroma adocicado do sangue dos homens. O cheiro a embriagava, atordoava os sentidos e lhe provocava vertigens. Era o refresco para sua alma sedenta num dia de calor.
O tempo todo permaneceu alerta, como um cão vigilante que guarda a casa. Olhou ao redor e avistou, dentre muitos homens, um que lhe pareceu a presa perfeita. Cobiçou-o com desejo por um bom tempo. Espreitou a sua vítima como uma cobra prestes a dar o bote e se aproximou cautelosamente como se não quisesse assustá-la ou intimidá-la. Era uma vampira.
Chegou ao bar, pediu uma vodca e bebeu com vontade, tranqüila, imperturbável. Concentrou o seu olhar na bebida. Sabia que estava sendo observada. Desejada.
– Está sozinha?
Ele tinha mordido a isca. Era o seu dia de sorte!
Adele virou-se em direção ao homem ao seu lado. Não escaparam aos seus olhos afiados os detalhes das mãos grandes e fortes, o caimento da roupa ao marcar o contorno preciso do corpo viril, a barba rala por fazer, o desenho dos lábios finos e avermelhados, os cachos desalinhados que compunham a bela moldura do rosto, o pescoço branco-macio. Ela sentiu um leve estremecimento percorrer o corpo, como uma febre passageira, uma moleza depois de um banho morno.
– Não. Mostrou o copo cheio.
Caminhou para o lado oposto ao dele numa tentativa de sair. Ele notando o movimento, segurou sensualmente o braço da sua companheira. O contato daquelas mãos no corpo dela, acionara o botão vermelho-alerta, que ligava a descarga de eletricidade e fazia a energia percorrer toda a maquinaria do corpo humano. Como se tivesse aberto a caixa de Pandora, encontrou ali sentimentos antes adormecidos, ansiosos para se verem libertos. Sentiu um turbilhão de sensações. Um comichão correr pela espinha. A dilatação das artérias aumentar. O tremor desgovernado nas pernas. Nos braços. As mãos ficaram frias. O corpo suado. O estômago revirado. A boca seca. A garganta entalada. A visão embaralhada. A cabeça transtornada. As batidas do coração. Aceleradas. A respiração curta. Apressada. Uma falta de ar... Um terrível sufocamento.
Ele sorriu para ela.
– Ele é ciumento?
– Geralmente sim. Mas ele me liberou por hoje.
Ele se aproximou dela e segurou suas mãos.
– Dança?
– Sim. Mas a noite não está boa para dançar.
– Não? Então está boa pra fazer o quê?
Ela olhou diretamente nos olhos dele. Maliciosamente.
– Para aproveitar melhor a companhia das pessoas, por exemplo.
– Talvez esse não seja o melhor lugar para apreciar uma boa companhia.
– Alguma sugestão?
Ele sorriu triunfante.
– Eu te mostro.
Puxou-a pela cintura com firmeza e conduziu-a até a saída. Pagou as bebidas. Saíram do bar e dirigiram-se até o carro dele.
Era o seu dia de sorte. Naquela noite, ela era a predadora.

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Marie – “Um sonho de jardim”

A porta de entrada era gigante, pesada e difícil de abrir. Ela respirou profundamente e empurrou-a. Valeu o esforço, pois se deparou com uma bonita casa que abria para uma enorme escadaria que dava para os quartos. Ao fundo, via-se um jardim de inverno, rico em flores e perfumes. O assoalho da área externa estava levemente úmido, culpando o orvalho que caiu durante a noite e que também provocava, com a umidade, um delicioso aroma que a troca de perfumes entre as flores proporcionava.
Marie subiu para um dos quartos, de onde se podia ver o divertido e colorido jardim, repleto de madressilvas, jorrando mel e com um perfume bem doce e evocativo, característica da flor, que circundava todo o local. Que sensação boa!
Ainda no jardim observou um girassol gigante, altivo, a planta mais alta dali. “Parece uma flor de sol”, sorriu. As verônicas rastejavam pelo riozinho artificial, deixando partir suas florezinhas na água, parecendo dizer adeus. Marie ficou ali olhando fixamente aquelas flores caindo na água e seguindo um caminho qualquer... Ficou pensando como seria bom poder se despedir de maneira bonita, pois, para ela, dizer adeus, se afastar, lhe parecia tão difícil de fazer. Disse baixinho que estava aprendendo com as flores a graça de dizer adeus! Sorriu satisfeita.
Uma pétula de margarida voou até Marie levantando seus pensamentos para a direção de onde elas estavam. Num canto do jardim, vistosas em um grande ramalhete vivo, as margaridas estavam despertas com a luz do dia que entrava pelo teto de vidro, parecendo chamar Marie para brincar de “Bem me quer, mal me quer”. Lembrou-se dos tempos da menina doce e romântica que fora. Nada mais. Marie era assim, humilde no seu vestido rosa de babado que gostava de vestir e sonhar. Se divertia fazendo coroas de margaridinhas para se “casar”...Adorava fazer poesias de amor.
Finalmente o olhar de Marie fixou-se na flor mais popular do jardim: “la rose”. A flor do amor. Que cheiro bom, Marie pensava enquanto saía da grande janela e caminhava pelo quarto de cortinas florais com papel de parede num tom creme suave. O vento lá fora parecia tocar uma música para as cortinas de tecido leve e transparente se envolverem numa dança sensual. Marie acomodou-se satisfeita na cama. Fechou os olhos, precisava aproveitar aquelas sensações tão boas, tão raras. Queria ficar ali, envolvida nas suas sensações e entregue aos prazeres que tanto buscava sentir.
Naquela casa, estava se permitindo ser quem era. Estava cansada de sempre estar pronta para todos, ser de todos e não ter nenhum ser para estar. Cansada de agir calmamente e com delicadeza em momentos em que estava irritada e disposta a criticar o que quer fosse...Agora podia ao menos estar consigo mesma. Iria aproveitar cada pedacinho da segurança daquela casa, da cama macia e fofa. Estava protegida como um pardalzinho recém-nascido no ninho preparado por uma mãe cuidadosa. Depois iria ao jardim, tocar as flores e sentir o perfume delas de pertinho. Já estava se comprometendo a não cortar e nem colher nenhuma planta. Afinal, a beleza estava ali, viva.
Tudo transbordava vida e Marie queria viver também. Viver de verdade.Queria ser como o jardim, com suas raízes fortes unidas na alegria de viver.
Um vento mais forte empurrou a janela, enrolando as cortinas, o que ficou parecendo uma briga de tecidos. Marie despertou num súbito do seu mais florido sonho. Sentiu um friozinho percorrer seu corpo tão desprotegido. Abriu os olhos doces e amendoados e percebeu pela janela que uma tempestade anunciava que seu dia não seria um sonho de jardim...Suspirou profundamente. Tinha muito a fazer e a desvendar no seu jardim real. Mas decidiu que não seria uma camponesa qualquer naquele dia.
Levantou-se vestida na sua camisola branca com babados florais, cobriu-se com um costume longo e azul marinho e caminhou lentamente em direção aos apetitosos “fraise” que estavam na cozinha.
Ainda tinha um tempo para degustá-los e então, iria se permitir a este prazer, pelo menos na primeira hora daquela manhã cor de chumbo. Ser ela mesma.

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Adele - O buraco negro

Naquela noite, Adele não conseguia dormir por mais que tentasse e se revirasse na cama. Uma grande inquietação, tirava-lhe o sono. Dúvidas terríveis se instalavam sorrateiramente em sua mente como os zumbidos dos pernilongos no dia de calor. Ela se levantou. Estava num estado de torpor e embriaguez, as perguntas não se calavam e giravam na sua cabeça num grande redemoinho.
O medo, animal feroz e faminto, se aproximava. Ele invadia os quartos amplos do seu labirinto, perseguindo-a incansavelmente pelos corredores do seu inconsciente. Queria esmagá-la com sua pata gorda-gigante para alimentar-se de suas forças. O medo aumentava todos os dias e estava aniquilando-a como um buraco negro dentro da sua existência. Ela sabia apenas que ele não conseguiria dominá-la.
De repente, lembrou-se de um texto que lera de Camus outro dia, que dizia que a morte era uma questão verdadeiramente existencial, pois todos os dias as pessoas optavam ou não pela vida. Ele atribuía alguns motivos para as pessoas optarem pelo desejo de não continuarem vivas, e o principal deles era a falta de significado que a vida lhes proporcionava. Se de fato as pessoas optavam diariamente pela vida, por que algumas prolongavam por anos essa dor de existir infinitamente? Afinal, o representava a vida? Que sentido ou significado poderia ser atribuído a ela? No momento, Adele não tinha respostas para estas e para muitas outras perguntas.
No entanto, ela podia sentir o vazio, o silêncio interior consumindo-a por dentro. A nudez fria da solidão cortava o seu corpo como a rigidez de uma faca. Era uma sensação de estrangulamento. Por longas horas. Prolongada infinitamente. Como despertando de um sono, sentou-se na cama e começou a chorar.

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

Tina - O espelho portal

Mas não bastava querer, suas perguntas a perseguiam e não lhe obedeceriam, Ela, se tivesse tido a oportunidade de escolher nem teria entrado nesse jogo perigoso, só que as coisas tomaram um rumo inesperado e tudo fugiu ao seu controle, situação dessas logo com ela que sempre fora tão centrada, inteligente e objetiva. Ao passar por ali via sua imagem refletida, foi hipnotizada frente a um rosto que lhe era totalmente familiar, mas que tomava contornos inesperados. Ficava intrigada, a cada novo encontro os seus próprios olhos lhe fascinavam cada vez mais, até que chegou a um ponto em que a curiosidade não lhe permitiu resistir. Empurrou o portão duplo e não sabia que depois de adentrá-lo não poderia sair pela entrada, nem imaginaria que depois daquela viagem jamais seria a mesma.

Depois do portão havia intensa luminosidade, mas Tina não conseguia determinar em qual direção se encontrava o sol, as folhas verdes respingavam ainda o orvalho da madrugada como se há pouco houvesse amanhecido, ou poderia ser uma chuva que acabara cair, mas logo observou que no chão arenoso não havia o menor resquício de água, era apenas areia muito fina e seca que refletia a luz e tomava em alguns momentos o aspecto dourado, como se pó de ouro fosse. O lugar parecia-lhe gigantesco e teve o ímpeto de descobrir aquele mundo novo rapidamente, esqueceu-se da realidade com a qual aprendera a viver, estava em fim entrando em contato com os elementos de sua existência interna que até então estavam escondidos nos recônditos mais sombrios, atrás da máscara que lhe impedia de enxergar-se verdadeiramente em seu reflexo.

Até onde podia se recordar havia evitado tal momento utilizando-se das mais diversas táticas de fuga que o tempo lhe ensinara, e não foram poucas as que teve que gastar em todos aqueles anos correndo para longe dos seus medos. Qual a razão misteriosa daquela outra mulher ela gostaria de descobrir, mas naquele instante não se encontrava à vontade para desenrolar pensamentos lógicos capazes de guiá-la dentro da imensidão de dúvidas e angústias desencadeadas logo após o seu aparecimento. Era um processo doloroso que teria de enfrentar. Ainda que um pouco obrigada pela sucessão de acontecimentos desencontrados topou o desafio.

A angústia de se sentir seguida começava a se refletir na sua vida durante a semana, suas perguntas a caçavam. Em uma ocasião, terça-feira normal de trabalho, sentiu-se tonta logo após levantar-se da cadeira para buscar uma pasta que deixara na outra sala, não conseguiu se manter em pé, caiu. Trombava em sua pressa e sabia que nesses esbarros era ferida pelos espinhos das cercas vivas. Algo escorria pelas suas pernas, eram pequeninos riachos de águas quentes e barrentas que se encontravam no tornozelo e formavam um rio volumoso. O sangue derramando era também a lucidez que se esvaía. As gotas da sua sensatez conduziam os seus monstros ao seu percalço inevitavelmente. Ela deixava para trás um rastro que ajudaria os seus monstros a encurralarem-na, viver aquilo era desesperador.

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Marie

Marie acordou com os olhos inchados, a boca seca, os cabelos desgrenhados e a pele amassada, parecendo que fora vítima de um rolo compressor. Horrorosa. A cidade luz estava apagada, assim como ela. Sua força para se levantar havia ficado em algum lugar, perdida. Na noite anterior, havia experimentado uma roti que parecia não estar tão assada. Mas não podia interferir neste preparo e calou-se. Mais uma vez, Marie calou-se. Não queria desagradar a cliente que de uns tempos pra cá resolveu participar dos preparos tão plenamente dominados por Marie. “A carne não pode ser servida assim...”, “ele prefere desta forma”, “eu sou a anfitriã, ok?”, retrucava Madame François, quando Marie, paciente e doce na sua voz aveludada tentava arrumar o que, previa, não iria ficar bom. Tudo foi em vão e ao final todos pareciam levemente confusos com o que “a saborosa Marie” havia preparado.
Marie se perguntou várias vezes durante o preparo do jantar dos Grimblot, por que ela havia sido contratada se ficou limitada a preparar somente os canapés de entrada para o exclusivo jantar. Não era possível acreditar que havia ficado calada para uma cozinheira de abattoir! Todos aqueles anos no Le Cordon Blue de Paris, estudando todos os cheiros e sabores, se aprimorando e apurando o paladar com os melhores vinhos em Borgonha, disciplinada e dedicada no aprendizado de pratos delicados e sofisticados para atender e dar prazer de comer à sociedade parisiense foram minados a um canapé? Não! Foi um pesadelo, pensou Marie.
A cabeça doía, confirmando que não havia sido um pesadelo para o desespero de Marie. Levantou-se devagar. A primorosa chef sempre satisfeita com seu trabalho, estava ali, desamparada, destemperada, sem gosto, tinha perdido o seu sabor. Parecia uma porcelana quebrada, frágil, sem chances de ser reconstruída. As partes que ainda estavam mais inteiras estavam trincadas e iriam se espatifar em pouco tempo.
Marie suspirou profundamente e então, largou todo o corpo pesado e amassado na cama novamente.
Deitada sobre si mesma ficou quieta como árvore seca, rígida e tensa. Ficou ali, miúda, pequena, diminuída, distante em seu penseé, marcada pela noite perdida, sentindo-se incapaz, vencida. Estava se sentindo injustiçada.
Fuir! Là-bas fuir! Deu o grito que não queria calar.
Respirou profundamente pedindo calma para si própria. Ficou se apalpando, usando as mãos como uma mãe massageia seu bebê, utilizando as técnicas de Shantala. A pele seca parecia precisar ser irrigada pelo toque de mãos úmidas, quentes e aconchegantes. Marie estava desprovida de um colo, de um holding, diria Winnicott.
De repente, num brusco instante, ela estatelou os olhos, ficou alerta e fixou o olhar no teto como se tivesse vendo um vautour à sua frente. Estava explicado!
Madame François começou a interferir no trabalho de Marie desde aquela vez em que a chef havia sido elogiada no jantar dos Villmont. No entanto, o elogio partira do sedutor Gerard, marido, anfitrião e homenageado de François.
Gerard havia sido indicado para coordenar a grande escola de dance, espaço reservado para receber somente as grandes e famosas companhias do mundo, tais como Le Cirque de Soleil, a qual Marie havia comentado ter grande admiração desde que assistira a apresentação do grupo. Tudo parecia perfeito desde a Vichyssoise até o Saint-Honoré de nozes, especialidade de Marie. O marido de François era um homem bonito, sofisticado, comunicativo e atraía a todos com seu jeito galante e primoroso de discursar. Simples, sutil e interessado ouvinte, sempre quis saber dos esforços de Marie para se tornar a profissional que era. Fisicamente era um homem másculo, de olhos azuis profundos, cabelos queimados de sol, de pele trigueira, os ombros largos, fortes, mãos grandes, prontas para fazer um holding, Marie pensou maliciosamente. Ela sempre falava de suas preferências e tipos masculinos e contava do estilo de Gerard em rodas de amigos. Um deus da história da Grécia! Onde estariam mais daqueles homens primorosos? Foram dizimados em alguma guerra? Porque o último era o Gerard e esse já estava casado, brincava.
Suspirou profundamente. A cabeça até parecia que havia parado de doer.
“Senhoras e senhores, esta noite foi primorosa, iluminada e saborosa. Primorosa pela presença de pessoas do meu convívio, tão queridas e admiradas. Iluminada pela surpresa de minha querida esposa em me proporcionar esta homenagem. Mas tenho que dizer que nada teria sido tão prazeroso sem a oportunidade de degustarmos um bom vinho e uma boa comida. E tudo isso só foi possível pelo talento, dedicação e competência da linda e saborosa Marie Lyon!”
Aplausos, risos, comentários, olhares. “Linda e saborosa Marie Lyon”.
Marie pensou, “ele deve ter exagerado no Gran Cru de Borgonha”, sugestão dela também para o evento e que palpitou elogios ao grande vinho pela noite toda.
Entre os olhares, Marie sentiu uma vibração forte em sua direção. Era o olhar afiado e fulminante de madame François que sorria entre dentes. Pareceu-lhe que o final - linda e saborosa Marie - não havia caído bem para alguns.
Gerard parecia não ter percebido que havia provocado um frisson no evento. Marie agradeceu gentilmente e saiu com seu jeito delicado que tanto lhe é peculiar.
Estava explicado. Marie, mais uma vez, estava sendo vítima da ira feminina, acuada por extintos masculinos e perdida entre as grandes mesas e os bons vinhos.
Decidiu que ficaria na cama até o próximo cliente ligar e exigir um jantar preparado somente por ela. Queria dormir e sonhar... com Gerard.

Adele

Sexta-feira. Os sons lá fora denunciavam que havia vida na cidade. Aos poucos, eles diminuíam o seu ritmo frenético e se calavam por instantes para contemplar a noite sem luar.
Se lá fora existia o silêncio, o grito mudo queria explodir dentro do apartamento de Adele. Ela roía as unhas impaciente, tentando em vão controlar a ansiedade que a dominava. Escorria água dos cabelos curtos e molhados, ferindo os ombros nus como picadas de mosquito, a camiseta mal cobria a alvura das suas coxas, mas não era isso que a perturbava. Descalça, andava pela casa, sem rumo, sem direção certa. Andava mais pelo comando das pernas do que pela consciência do que fazia.
Uma raiva intensa começou a surgir. Incontrolável. Prestes a romper como a lava espessa, quente e borbulhante do vulcão em erupção. Era uma mulher de temperamento forte e de pavio curto. Impulsiva. Paciência e calma eram duas palavras que não existiam no vocabulário de Adele.
Estava esperando há horas e nenhum telefonema, nenhuma mensagem, nenhuma porra de resposta. Ela estava cansada disso. Quem o filho da puta pensava que ela era? Alguma trouxa? Ele achava que ela era burra? Que não percebia as coisas? Mas isso não ia ficar assim, não! Por que ela não era mulher de agüentar desaforo calada. Se ele estava aprontando alguma, ele ia se fuder. Por que ela daria o troco e seria pior, muito pior. Se ele realmente pensava que ela ficar ali esperando feito uma idiota por ele, estava completamente enganado. Se ele achava que ela ia ficar chorando pelos cantos...o cacete. Por que ela faria pior, muito pior.
Agora que eles estavam conseguindo lidar melhor com as diferenças, ele aprontava com ela. Há seis meses moravam juntos, esta era a terceira vez que ele desaparecia sem dar a menor satisfação. Ela já tinha agüentado demais. Ele realmente não sabia do que ela era capaz.
Resolveu se sentar no peitoril da janela e olhar a bela noite que fazia. Ao invés de acalmá-la, a tranqüilidade da noite lhe irritou profundamente. O tempo ia passando devagar como se não tivesse pressa em devorá-la. Preferia matá-la aos poucos.
O jantar, que fora preparado com tanto cuidado, havia esfriado. Na casa, as janelas observavam os pratos vazios, os talheres inúteis, a comida insensível à dor daquela que a prepara a pouco. O gosto amargo do ódio subia-lhe pelo estômago e dava-lhe uma azia terrível.Num súbito impulso, ela saiu correndo em direção ao quarto. Abriu o guarda-roupa e atirou as roupas dele sobre a cama. Jogou-as indistintamente, sem piedade sobre a mala que havia embaixo da cama. Depois de fechar bem a mala, colocou-a no corredor lá fora. Em seguida, escolheu um vestido, o mais decotado, o mais curto e abusado que tinha no guarda-roupa. Olhou-o demoradamente. Namorou por um longo tempo. Então, tirou a camiseta, e colocou-o sobre o corpo. Pegou as sandálias de salto, calçou-as e olhou-se no espelho cheia de malícia. Logo depois, apanhou a bolsa e caiu na noite.

Tina

Tina para quem a conhece representa alegria e liberdade, é amiga e a companhia preferida de todos. Não se cansa nunca e tem sempre um sorriso agradável no rosto, que atrai e acolhe qualquer pessoa, a simpatia é sua principal característica. É dessas mulheres que não têm chilique nem crises, ou, como gosta de dizer, nunca teve TPM porque não tem tempo. Realmente não tem tempo, os compromissos lhe exigem muito e quando não está trabalhando arranja alguma compra para fazer ou uma amiga para visitar. Viver é exatamente não ter tempo, encontrou no trabalho a melhor forma de preencher o vazio. Há dois anos não tinha férias e era com isso que ela estava acostumada, com a agitação ininterrupta dos afazeres do dia-a-dia.
Foi ao cinema no sábado e sonhou com o casal do filme a noite inteira, em alguns momentos ela era a esposa que perdia os filhos num acidente de carro. Acordou no dia seguinte, a janela estava aberta, desde a época da faculdade gostava de ser acordada pela luz do sol, mas lá fora havia apenas um cinza quase branco, as nuvens pesadas e chorosas se amontoavam no céu que parecia mais perto do chão, sufocante. A claridade do quarto estava densa e misteriosa. Sentou-se de frente ao espelho da penteadeira e olhou bem aquela mulher à sua frente, analisou-a em cada detalhe, os olhos já não lhe pareciam tão vivos, sua pele havia perdido um pouco do brilho e do frescor e agora, além das marcas de expressão, encontrou o início de algumas rugas.
O seu aniversário chegaria em breve, faria quarenta anos no próximo mês e esta aproximação lhe trazia muitos questionamentos, estava entrando em contato com algumas coisas ocultas, pensamentos com os quais havia evitado estar. A sua existência até ali, por mais que se esforçasse, não lhe parecia fazer o menor sentido, não tinha nenhuma graça, e essa verdade ela não conseguia mudar, não era possível mentir diante do espelho. Ela não encontrou o homem perfeito, não casou na igreja, não se reconciliou com seu pai. A Luana e o Mateus ficaram lá muito atrás, nos questionários que as meninas do colégio faziam, nas folhas onde escreviam quantos filhos queriam ter e quais seriam os seus nomes. E ela não sabia responder a si mesma se estes eram seus sonhos reais ou apenas relíquias ainda guardadas da sua infância. O tempo às vezes se encarregava de apagar lembranças boas, mas era cruel ao manter as ilusões alimentadas no passado. Cada vez mais sentia que o tempo, sim, ainda ele, conseguia sempre agravar sua solidão. Este sentimento aos poucos ia se instalando e era como um câncer generalizado, para a sua cura seria necessário um milagre, mas há algum tempo ela já não mais acreditava neles.
Acordar no domingo era desesperador, é o pior dia, o mais inútil, não tinha muito o que fazer e isso a deixava perdida. No domingo seguinte fazia sol, sentou-se em frente ao espelho e olhou o seu rosto novamente. No início parecia apenas que seus olhos estavam um pouco irritados, já que eles estavam estáticos diante de si mesma, foi aí que desceu a primeira lágrima lubrificante, mas essa pequena gota precipitou uma chuva fina e triste, naquele dia ela era a nuvem carregada. Sem conseguir entender o porquê naquele instante continuou chorando e não podia parar. Ela não sabia lidar com esse seu outro eu que aparecia diante do espelho, ela não queria ser essa Tina triste aos domingos.