sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

Marie – Asas quebradas

Dois longos raios de sol entraram pelas fendas das dobradiças salvando Marie da noite anterior. Empurrou os lençóis e dirigiu-se até o espelho. Queria ser grande, mas lhe faltava ambição. Era franca, ingênua. Num gesto involuntário, acariciou aquele rosto refletido de dor e desespero. A face macia estava endurecida como uma muralha de pedra. Seus cabelos despenteados tentavam suavizar aquela imagem perdida num vazio eterno. Em vão.

Queria acordar longe dali acompanhada de um instinto mais malvado e ágil como uma fera. Estava cheia demais de leite de ternura humana para viver em uma amarga realidade. Não gostaria de agir com falsidade e nem ganhar sem merecer. Mas não havia outra saída. Tudo que lhe prometeram era falsificado como um vinho barato e mal feito. Um gosto amargo desceu por suas entranhas identificando que aquelas sensações também eram suas e tinha que aceitá-las. Conteve-se. As coisas não acontecem por acaso, pensou. Talvez fosse essa a hora de transformar seu mundo em lugar mais belo e mais doce.

Uma faísca de ânimo passou por seus olhos fazendo-os piscar e retornar a sua crua realidade. Estava esgotada e seu tempo na cidade luz era de poucas horas. A nuvem solitária deveria tomar outro rumo, buscar outros vales e colinas, diluir-se em algum mar longe dali. Quem sabe aliada a um oceano pudesse encontrar o que lhe faltava: poder.

Caminhou até sua única acolhedora: sua cama. Envolveu-se nos lençóis que havia desprezado, e aninhou-se como um pássaro de asas quebradas, sem forças para voar. Adormeceu novamente em meio ao travesseiro úmido de sua dor.

A moça de asas quebradas queria ser recuperada por um anjo bom que lhe emprestaria suas asas e juntos voariam para bem longe dali rumo ao encontro do amor e da paz.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

Adele - O Bolo

Sua mãe sempre dizia que não havia nada mais complicado do que a arte de cozinhar, principalmente, no preparo de massas. Para dar certo, era preciso bom senso para selecionar todos os ingredientes; atenção no momento de dosar a medida certa de cada um deles, muito cuidado na hora de misturá-los; intuição para perceber o momento preciso em que o bolo estivesse pronto.

Com a cautela de um aprendiz na execução dos seus primeiros trabalhos, Adele experimentava seu poder na culinária. Colocara todas as recomendações sugeridas na panela, misturando-as suavemente em fogo brando. Depositara em seu preparo uma voluptuosa esperança de ver o seu bolo crescer forte e saudável.

Com um simples movimento da mão _ quando batia os ovos ou manuseava o recheio _ ela operava a transformação das substâncias; a matéria tornava-se um ser que pulsava vida. Da agilidade no contato com a mão; a massa, ao ser amassada, ganhava um novo valor. Era um momento mágico, cheio de doce ansiedade.

No entanto, com pressa de fazê-lo bem feito, Adele não tivera paciência o suficiente para esperá-lo atingir sua plenitude. Ao sair do forno, o bolo saiu timidamente, quase sem fazer barulho. Murcho, indefeso e sem vida. Contemplando-o, ela suspirou. Em suas mãos jazia apenas um corpo inerte. Estéril por dentro, cheio de uma pálida indiferença.

Ela só pensava no que fizera de errado. Esquecera alguma coisa? Será que a combinação dos ingredientes não tinha sido a mais adequada? Ou será que faltara uma xícara a mais de decisão? Ou quem sabe, uma pitada a mais de confiança seria o diferencial?

As dúvidas continuaram e lembrou-se que sua mãe havia esquecido de dizer que talvez aquela fosse a melhor maneira dela fazer o bolo. Adele se questionava se havia uma única maneira de prepará-lo “corretamente”. Naquele instante, ela percebia, com muita clareza, que havia também acertado em alguns pontos. Talvez, ela tivesse que encontrar a "sua maneira" de fazer a receita.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Adele - A Rosa Branca

As espumas cobriam o corpo, deixando pequenas mostras de seus contornos a vista. Contemplando o corpo nu, Adele percebia que o contraste do branco da pele com o vivo vermelho dos cabelos formava uma harmoniosa composição. Era uma flor desabrochando em volúpia. Era rosa. Rosa bela, rosa branca. Olhava com os olhos de uma amante exigente; os olhos presentes e inquietos. Mirando-se na água, apaixonava-se por sua imagem refletida.

Durante o banho, ela se acariciava como uma mãe zelosa. Aquelas primeiras carícias eram um gesto de amor. O acolhimento do filho faminto ao seio materno. Os braços enlaçando o seu corpo de fêmea como um refúgio e proteção. Fechava os olhos para se entregar inteiramente a esse deleite. Era o desejo explodindo em sua carne.

Uma perturbação a invadia por inteiro. Seu corpo ardia e um comichão corria pela espinha. Um doce cansaço a envolvia ao sentir a leve pressão de suas mãos. Eram cócegas provocadas pelo roçar dos dedos dentro de sua alma. A verdadeira fruição da liberdade.

Soltou um espasmo, lânguido e longo. Ela conseguira atingir o interior de si mesma. Conseguira explorar as suas mais profundas e secretas trevas.

Não havia resistência. Havia apenas um alegre abandono. Uma febre que a libertava temporariamente. Mágica e ao mesmo tempo assustadora.

Deixou-se ficar abandonada na água, quieta; sentindo-se acolhida por aquele abraço morno durante um tempo. Levantou-se da banheira calmamente e vestiu o roupão. Era só ela. Nada poderia substituir esse encontro amoroso consigo mesma. Estava feliz. Liberta. Era isso que importava.