O quarto em que se encontrava estava abafado. Abriu os olhos e ainda sentia uma dor dilacerante, porém muito menor da que sentia antes de dormir. O suor escorria pelo seu rosto e sentia a camiseta toda molhada grudada em seu corpo. Os lençóis exalavam o odor de sangue que impregnava o ar. Um turbilhão de pensamentos deixavam sua cabeça mais quente ainda que a temperatura do quarto. A dor emocional era infinitamente maior em comparação àquela no seu útero ensanguentado. Tentou manter a calma, mas o calor lhe deixava mais agoniada, além de lhe tirar qualquer resquício de força para levantar e tomar um banho, nem um grito chamando por sua amiga conseguiria.
O que lhe pareceu uma eternidade foram apenas os dez minutos que Daiane levou indo até a cozinha fazer uma compresse para resfriar a amiga que ardia em febre. Tina ouviu a porta do quarto ranger. Fui buscar gelo e água, você tava ardendo em febre. Mas acho que está passando, você tá toda molhada. Não precisa ficar nervosa, logo logo passa e tudo vai ficar bem, viu?
Tina escutava aquela voz tão querida e se sentiu mais segura, a calma lhe voltava em doses homeopáticas, imaginava que cada palavra de apoio naquele momento era um remédio que a livraria do castigo da morte. Obrigada por tudo! Daiane ficou ao seu lado até o dia seguinte. Fez sopa, deu banho, e se esforçou para se transformar numa fortaleza e dar o apoio necessário à amiga. Foi assim até o domingo, quando finalmente cessou a hemorragia e Tina conseguiu se levantar.
Na noite anterior viveu um pesadelo. A culpa era o sentimento dominante, sentiu que seria castigada pelo seu ato o resto da vida, era uma assassina e sabia que merecia pagar pela vida que roubou.
Quando a poeira baixou e o ar se tornou calmo de novo, a menina, com um sorriso no rosto, perguntou em tom doce: Mamãe, por que eu não nasci?
segunda-feira, 26 de novembro de 2007
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Um comentário:
Conseguiu passar a dor sem ser piegas...
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