segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Tina - A menina

Caída ainda estava na areia morna e macia, havia desmaiado. Um vento forte soprou, as pequenas partículas encontravam a pele já um pouco ressecada de seu rosto. O atrito a despertara, sentia que os grãos queriam penetrar-lhe, que eles pretendiam se fundir à sua massa corporal e formar um novo rosto, mais compacto, tamanha era força com a qual lhe atingiam. Quis dar-se conta da realidade que a rodeava, mas àquele momento a velocidade do vento era tanta que a pressão lhe dificultava o movimento das pálpebras. Notou o barulho ao seu redor, os uivos da ventania lhe remetiam às tardes de temporal na sacada do seu apartamento, quando apaixonada era a ouvinte da conversa dos ares. Tentou decifrar o que era conversado, mas de nada adiantava o seu esforço, vinham ventos de todas as direções, como se fossem várias vozes ao mesmo tempo querendo lhe dizer coisas simultaneamente. Ininteligível.

Subitamente as correntes de ar se calaram. Tina pôde abrir os olhos e enxergar, ainda em meio a cortinas de poeira que baixavam, uma criança. Tratava-se de uma pequena menina, toda vestida de domingo, com vestidinho de rendas azuis extremamente claras e fitinhas na mesma cor, amarradas nos cabelos castanhos ondulados que lhe batiam à cinturinha fina e marcada por uma faixa branca com detalhes em florezinhas em vários tons de azuis. Percebeu que a menina, apesar de aparentar nove ou dez anos, já estava formando um corpo de mulher. Aquilo lhe dava mais doçura ainda, pois os contornos da cintura, realçados com a faixa, lhe deixavam parecida com uma pequena boneca de porcelana.

Seu rostinho era ainda angelical com bochechas realçando sua inocência e doçura. Aqueles traços não eram estranhos à Tina, aquela menina tinha a fisionomia de alguém próximo a ela. Buscou em sua memória as imagens semelhantes àquele quadro que ali se formara, uma encantadora garota de vestidinho com plantas de espinhos verde-escuras ao fundo. O fundo verde lhe trouxe a lembrança da grama da pracinha onde os pais a levavam para brincar nos finais de semana. Lembrou-se da foto que sua mãe mantinha no porta-retrato de sua cabeceira. Ao pensar na mãe, conseguiu finalmente reconhecer na menina os traços de sua família. Agora que não havia nada entre as duas, a constatação lhe pareceu óbvia. Sim, não havia dúvidas. Aquele pequeno ser, inegavelmente, fazia parte de sua própria família. O grau de parentesco era muito próximo.

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