O quarto em que se encontrava estava abafado. Abriu os olhos e ainda sentia uma dor dilacerante, porém muito menor da que sentia antes de dormir. O suor escorria pelo seu rosto e sentia a camiseta toda molhada grudada em seu corpo. Os lençóis exalavam o odor de sangue que impregnava o ar. Um turbilhão de pensamentos deixavam sua cabeça mais quente ainda que a temperatura do quarto. A dor emocional era infinitamente maior em comparação àquela no seu útero ensanguentado. Tentou manter a calma, mas o calor lhe deixava mais agoniada, além de lhe tirar qualquer resquício de força para levantar e tomar um banho, nem um grito chamando por sua amiga conseguiria.
O que lhe pareceu uma eternidade foram apenas os dez minutos que Daiane levou indo até a cozinha fazer uma compresse para resfriar a amiga que ardia em febre. Tina ouviu a porta do quarto ranger. Fui buscar gelo e água, você tava ardendo em febre. Mas acho que está passando, você tá toda molhada. Não precisa ficar nervosa, logo logo passa e tudo vai ficar bem, viu?
Tina escutava aquela voz tão querida e se sentiu mais segura, a calma lhe voltava em doses homeopáticas, imaginava que cada palavra de apoio naquele momento era um remédio que a livraria do castigo da morte. Obrigada por tudo! Daiane ficou ao seu lado até o dia seguinte. Fez sopa, deu banho, e se esforçou para se transformar numa fortaleza e dar o apoio necessário à amiga. Foi assim até o domingo, quando finalmente cessou a hemorragia e Tina conseguiu se levantar.
Na noite anterior viveu um pesadelo. A culpa era o sentimento dominante, sentiu que seria castigada pelo seu ato o resto da vida, era uma assassina e sabia que merecia pagar pela vida que roubou.
Quando a poeira baixou e o ar se tornou calmo de novo, a menina, com um sorriso no rosto, perguntou em tom doce: Mamãe, por que eu não nasci?
segunda-feira, 26 de novembro de 2007
quarta-feira, 14 de novembro de 2007
Adele - Domingo
Num olhar mais atento na prancheta, ela notou pequenos esboços se formarem sob os croquis. Traços simples, como os de uma criança, iam se delineando nas folhas de papel. Era uma gatinha. Ela corria, brincava e pulava alegre; Adele acompanhava com o olhar atento os movimentos do filhote. Uma mancha vermelha ia tingindo aos poucos os desenhos que livremente preenchiam o longo espaço das folhas. Um filete vermelho como sangue. Púrpura.
Adele esfregara os olhos naquele instante. Quando tornou a olhar novamente as folhas, reparara que eram as mesmas de antes, brancas e inabitadas de sempre. Talvez fora o cansaço que a deixara naquele estado de sonolência.
Estava tão imersa em seus pensamentos que havia esquecido por completo o que fazia, só voltou a realidade quando percebeu que derrubara a caneta vermelha no chão. Aproveitou o momento e se espreguiçou tranqüilamente como uma gata manhosa. Precisava de uma xícara de café urgente. Levantou-se, dirigiu-se até a cozinha e tomou um grande gole com vontade. Olhou para o relógio e percebeu que era tarde.
Voltou para a prancheta e olhou meio desatenta para os croquis espalhados. Tinha concluído boa parte do projeto. Faltavam apenas dois cortes da planta. Seus trabalhos sempre rendiam mais a noite do que na parte da manhã, momento em que não estava completamente desperta. O silêncio da noite ajudava-lhe a se concentrar melhor. No entanto, por mais que tentasse continuar o trabalho, seus pensamentos tomavam um outro caminho, se perdendo em meio a uma névoa branca que invadia de tempos em tempos a estrada.
Adele odiava os domingos. Procurava sempre preencher com alguma ocupação as horas vazias do dia. Depois do almoço, ela tinha ido andar um pouco pelo centro da cidade, quando vira uma imagem que a consternara. Vira uma gata ainda filhote, ferida, os bigodes queimados. Mancava com a pata machucada e parecia miar de fome.
Procurava não pensar muito no assunto, mas com grande insistência a imagem conseguia ludibriá-la e reaparecia com mais força em sua mente. Aquela imagem que não durara mais do que dois minutos, provocara nela uma dor aguda, lacerante no peito tal como o corte afiado da faca na carne. Sentia medo. Havia o medo de continuar sozinha como aquela gata na rua. Assustada e ferida. Abandonada a sua própria dor.
Adele esfregara os olhos naquele instante. Quando tornou a olhar novamente as folhas, reparara que eram as mesmas de antes, brancas e inabitadas de sempre. Talvez fora o cansaço que a deixara naquele estado de sonolência.
Estava tão imersa em seus pensamentos que havia esquecido por completo o que fazia, só voltou a realidade quando percebeu que derrubara a caneta vermelha no chão. Aproveitou o momento e se espreguiçou tranqüilamente como uma gata manhosa. Precisava de uma xícara de café urgente. Levantou-se, dirigiu-se até a cozinha e tomou um grande gole com vontade. Olhou para o relógio e percebeu que era tarde.
Voltou para a prancheta e olhou meio desatenta para os croquis espalhados. Tinha concluído boa parte do projeto. Faltavam apenas dois cortes da planta. Seus trabalhos sempre rendiam mais a noite do que na parte da manhã, momento em que não estava completamente desperta. O silêncio da noite ajudava-lhe a se concentrar melhor. No entanto, por mais que tentasse continuar o trabalho, seus pensamentos tomavam um outro caminho, se perdendo em meio a uma névoa branca que invadia de tempos em tempos a estrada.
Adele odiava os domingos. Procurava sempre preencher com alguma ocupação as horas vazias do dia. Depois do almoço, ela tinha ido andar um pouco pelo centro da cidade, quando vira uma imagem que a consternara. Vira uma gata ainda filhote, ferida, os bigodes queimados. Mancava com a pata machucada e parecia miar de fome.
Procurava não pensar muito no assunto, mas com grande insistência a imagem conseguia ludibriá-la e reaparecia com mais força em sua mente. Aquela imagem que não durara mais do que dois minutos, provocara nela uma dor aguda, lacerante no peito tal como o corte afiado da faca na carne. Sentia medo. Havia o medo de continuar sozinha como aquela gata na rua. Assustada e ferida. Abandonada a sua própria dor.
segunda-feira, 12 de novembro de 2007
Tina - A menina
Caída ainda estava na areia morna e macia, havia desmaiado. Um vento forte soprou, as pequenas partículas encontravam a pele já um pouco ressecada de seu rosto. O atrito a despertara, sentia que os grãos queriam penetrar-lhe, que eles pretendiam se fundir à sua massa corporal e formar um novo rosto, mais compacto, tamanha era força com a qual lhe atingiam. Quis dar-se conta da realidade que a rodeava, mas àquele momento a velocidade do vento era tanta que a pressão lhe dificultava o movimento das pálpebras. Notou o barulho ao seu redor, os uivos da ventania lhe remetiam às tardes de temporal na sacada do seu apartamento, quando apaixonada era a ouvinte da conversa dos ares. Tentou decifrar o que era conversado, mas de nada adiantava o seu esforço, vinham ventos de todas as direções, como se fossem várias vozes ao mesmo tempo querendo lhe dizer coisas simultaneamente. Ininteligível.
Subitamente as correntes de ar se calaram. Tina pôde abrir os olhos e enxergar, ainda em meio a cortinas de poeira que baixavam, uma criança. Tratava-se de uma pequena menina, toda vestida de domingo, com vestidinho de rendas azuis extremamente claras e fitinhas na mesma cor, amarradas nos cabelos castanhos ondulados que lhe batiam à cinturinha fina e marcada por uma faixa branca com detalhes em florezinhas em vários tons de azuis. Percebeu que a menina, apesar de aparentar nove ou dez anos, já estava formando um corpo de mulher. Aquilo lhe dava mais doçura ainda, pois os contornos da cintura, realçados com a faixa, lhe deixavam parecida com uma pequena boneca de porcelana.
Seu rostinho era ainda angelical com bochechas realçando sua inocência e doçura. Aqueles traços não eram estranhos à Tina, aquela menina tinha a fisionomia de alguém próximo a ela. Buscou em sua memória as imagens semelhantes àquele quadro que ali se formara, uma encantadora garota de vestidinho com plantas de espinhos verde-escuras ao fundo. O fundo verde lhe trouxe a lembrança da grama da pracinha onde os pais a levavam para brincar nos finais de semana. Lembrou-se da foto que sua mãe mantinha no porta-retrato de sua cabeceira. Ao pensar na mãe, conseguiu finalmente reconhecer na menina os traços de sua família. Agora que não havia nada entre as duas, a constatação lhe pareceu óbvia. Sim, não havia dúvidas. Aquele pequeno ser, inegavelmente, fazia parte de sua própria família. O grau de parentesco era muito próximo.
Subitamente as correntes de ar se calaram. Tina pôde abrir os olhos e enxergar, ainda em meio a cortinas de poeira que baixavam, uma criança. Tratava-se de uma pequena menina, toda vestida de domingo, com vestidinho de rendas azuis extremamente claras e fitinhas na mesma cor, amarradas nos cabelos castanhos ondulados que lhe batiam à cinturinha fina e marcada por uma faixa branca com detalhes em florezinhas em vários tons de azuis. Percebeu que a menina, apesar de aparentar nove ou dez anos, já estava formando um corpo de mulher. Aquilo lhe dava mais doçura ainda, pois os contornos da cintura, realçados com a faixa, lhe deixavam parecida com uma pequena boneca de porcelana.
Seu rostinho era ainda angelical com bochechas realçando sua inocência e doçura. Aqueles traços não eram estranhos à Tina, aquela menina tinha a fisionomia de alguém próximo a ela. Buscou em sua memória as imagens semelhantes àquele quadro que ali se formara, uma encantadora garota de vestidinho com plantas de espinhos verde-escuras ao fundo. O fundo verde lhe trouxe a lembrança da grama da pracinha onde os pais a levavam para brincar nos finais de semana. Lembrou-se da foto que sua mãe mantinha no porta-retrato de sua cabeceira. Ao pensar na mãe, conseguiu finalmente reconhecer na menina os traços de sua família. Agora que não havia nada entre as duas, a constatação lhe pareceu óbvia. Sim, não havia dúvidas. Aquele pequeno ser, inegavelmente, fazia parte de sua própria família. O grau de parentesco era muito próximo.
sexta-feira, 2 de novembro de 2007
Marie – O amor é benigno
“O amor é benigno; o amor não é inveja, o amor não se vangloria, não se ensorbebece... Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta”. Coríntios 13:4:7 - Leila e Jean convidam para seu casamento...Marie parou a leitura e começou a observar aquelas letras em relevo no cuidadoso convite grande e prateado que revelava um amor sem limites de um casal prestes a se unir até que a morte os separasse. Havia ainda um cordão prateado com uma pedrinha brilhante em cada ponta que envolvia todo o convite formando um gracioso laço que unia as “peças”, levando o observador a uma simbologia lúdica de que aquele casal estariam sempre juntos, “amarrados” pelo amor, pensou.
Uma lágrima pesada de dor caiu sobre o nome do casal, borrando de sofrimento um convite para o amor, para a alegria, para a celebração. Não para Marie. O convite havia feito com que ela entrasse numa parte escondida de si mesma. Numa caixa interna fechada, vedada, mas que pelo visto, não havia sido totalmente lacrada, a caixa estava inacabada e o convite fora a chave que faltava para rompê-la. A mulher forte, decidida, a profissional competente e determinada estava agora com os olhos marejados feito criança, frágil num barquinho de papel, naufragado, precisando ser ancorado. Estava cheia de saudades, de lembranças, recordando um cristal que se espatifara cujos pedacinhos haviam sido perdidos ao longo do tempo. E não havia como uni-los novamente.
Lembrou-se de Pierre convidando-a para o primeiro encontro em Montmartre. O passeio de mãos dadas visitando as galerias de arte, o bate-papo com os artistas falando sobre suas obras. Os dois gostavam das mesmas coisas. O abraço e o primeiro beijo apaixonado na calçada florida do Jardin du Luxembourg fazia pensar o que seria mais doce naquele momento, as flores ou as intenções daquele casal. Eles expressavam a linguagem do amor, do amor benigno, do amor que tudo crê.
“Tão doce parecia o amor naquela manhã de abril, quando trocamos o primeiro beijo ao lado do espinheiro. Tão estranhamente doce que, por isso mesmo, achamos que esse amor não mudaria jamais”. – Marie recitou quase sem voz o poema do poeta inglês Robert Bridges, enxugando os olhos ainda molhados nas faces brilhantes e vivas da mulher bonita e triste de amor.
Lá fora uma chuva forte continuava a molhar a alma de Marie, que sempre abria as janelas a pedido de Pierre: “abre, gosto de sentir o cheiro e o barulho da chuva”, ele dizia e a abraçava para que pudessem apreciar aquele momento mágico.Marie foi à janela, respirou fundo e abriu as persianas da varanda. Ultimamente não estava desfrutando muito daquele espaço da casa, pois faltava alguém para apreciar com ela a linda vista de Saint-Louis.Parou de enxugar a chuva de seu rosto, deixando-a misturar com a água que caia do céu. Talvez, assim pudesse lavar a alma, refrescar o coração, acalentar-se com a natureza que era a única a assistir sua dor, sem cobrá-la por isto.
Ficou ali perdida na sua tempestade interna, desprotegida de si mesma. Precisava permitir a si mesma romper a caixa de um amor que não suportou vê-la na sua extravagância fantástica de mulher. Um amor que não acreditou que a moça também era independente nos seus afazeres e competente como profissional. Um amor que não perdoou Marie de sua voracidade ao desvendar caminhos estreitos, pelo simples prazer da descoberta. O amor de Marie e Pierre havia morrido, acabado, chegado ao fim. O cristal se rompera, o laço da união havia se desfeito. Sobrara um nó na garganta, umas lágrimas de cristal no rosto, um sonho inacabado. Mais uma história na vida de Marie, que tinha muitas para contar.
Mas ela estava feliz pela amiga. Sabia que iria encontrar um novo amor tão benigno quanto o dela. E não era inveja, era desejo de continuar a acreditar no amor. Por que o lema de Marie sempre fora o de não desistir nunca. Então, preferiria ser feliz a ser triste. Iria encontrar outro cristal para cuidar e amar verdadeiramente.
Mas ela estava feliz pela amiga. Sabia que iria encontrar um novo amor tão benigno quanto o dela. E não era inveja, era desejo de continuar a acreditar no amor. Por que o lema de Marie sempre fora o de não desistir nunca. Então, preferiria ser feliz a ser triste. Iria encontrar outro cristal para cuidar e amar verdadeiramente.
O telefone tocou estridentemente. Era Leila, radiante como sempre, confirmando o convite de Marie para o jantar em sua casa.
Marie prepararia um jantar do tamanho do amor deles, o melhor da vida deles! brincou.Um jantar especial para um casal que acreditava que o amor tudo podia. "Le voilà!"
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