sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Tina

Tina para quem a conhece representa alegria e liberdade, é amiga e a companhia preferida de todos. Não se cansa nunca e tem sempre um sorriso agradável no rosto, que atrai e acolhe qualquer pessoa, a simpatia é sua principal característica. É dessas mulheres que não têm chilique nem crises, ou, como gosta de dizer, nunca teve TPM porque não tem tempo. Realmente não tem tempo, os compromissos lhe exigem muito e quando não está trabalhando arranja alguma compra para fazer ou uma amiga para visitar. Viver é exatamente não ter tempo, encontrou no trabalho a melhor forma de preencher o vazio. Há dois anos não tinha férias e era com isso que ela estava acostumada, com a agitação ininterrupta dos afazeres do dia-a-dia.
Foi ao cinema no sábado e sonhou com o casal do filme a noite inteira, em alguns momentos ela era a esposa que perdia os filhos num acidente de carro. Acordou no dia seguinte, a janela estava aberta, desde a época da faculdade gostava de ser acordada pela luz do sol, mas lá fora havia apenas um cinza quase branco, as nuvens pesadas e chorosas se amontoavam no céu que parecia mais perto do chão, sufocante. A claridade do quarto estava densa e misteriosa. Sentou-se de frente ao espelho da penteadeira e olhou bem aquela mulher à sua frente, analisou-a em cada detalhe, os olhos já não lhe pareciam tão vivos, sua pele havia perdido um pouco do brilho e do frescor e agora, além das marcas de expressão, encontrou o início de algumas rugas.
O seu aniversário chegaria em breve, faria quarenta anos no próximo mês e esta aproximação lhe trazia muitos questionamentos, estava entrando em contato com algumas coisas ocultas, pensamentos com os quais havia evitado estar. A sua existência até ali, por mais que se esforçasse, não lhe parecia fazer o menor sentido, não tinha nenhuma graça, e essa verdade ela não conseguia mudar, não era possível mentir diante do espelho. Ela não encontrou o homem perfeito, não casou na igreja, não se reconciliou com seu pai. A Luana e o Mateus ficaram lá muito atrás, nos questionários que as meninas do colégio faziam, nas folhas onde escreviam quantos filhos queriam ter e quais seriam os seus nomes. E ela não sabia responder a si mesma se estes eram seus sonhos reais ou apenas relíquias ainda guardadas da sua infância. O tempo às vezes se encarregava de apagar lembranças boas, mas era cruel ao manter as ilusões alimentadas no passado. Cada vez mais sentia que o tempo, sim, ainda ele, conseguia sempre agravar sua solidão. Este sentimento aos poucos ia se instalando e era como um câncer generalizado, para a sua cura seria necessário um milagre, mas há algum tempo ela já não mais acreditava neles.
Acordar no domingo era desesperador, é o pior dia, o mais inútil, não tinha muito o que fazer e isso a deixava perdida. No domingo seguinte fazia sol, sentou-se em frente ao espelho e olhou o seu rosto novamente. No início parecia apenas que seus olhos estavam um pouco irritados, já que eles estavam estáticos diante de si mesma, foi aí que desceu a primeira lágrima lubrificante, mas essa pequena gota precipitou uma chuva fina e triste, naquele dia ela era a nuvem carregada. Sem conseguir entender o porquê naquele instante continuou chorando e não podia parar. Ela não sabia lidar com esse seu outro eu que aparecia diante do espelho, ela não queria ser essa Tina triste aos domingos.

6 comentários:

Paulo disse...

É... vou manter minha lógica... e talvez subconscientemente por eliminação, acho esse é o da Pê...

Fernando S. Trevisan disse...

Excelente, melhor ainda que os outros dois! Adorei as interações dela com o ambiente, a relação dela com o espelho como revelador de suas intimidades e do domingo como o dia crucial, o dia da verdade em que não há nada a fazer, a não ser chorar por não "ser", apenas "estar", constantemente...

Unknown disse...

Ah essa eu não esperava, mas acho que esse texto é do Gu pessoal, como assim você entende tão bem de tpm? No começo eu poderia jurar que ele se auto-descreve, mas ele é tão modesto que não poderia reconhcer essas características nele mesmo... Não se cansa nunca e tem sempre um sorriso agradável no rosto, que atrai e acolhe qualquer pessoa, a simpatia é sua principal característica... Fala pra Tina que a tristeza é senhora desde que o samba é samba é assim, a lágrima clara sobre a pele escura, a noite a chuva que cai lá fora, solidão apavora...
escreva mais e mais... que suas inquietações nunca se esvaiam de ti...
beijinhos Carla Nunes Cantiere

Alan disse...

Como eu havia dito, me identifiquei com ela( e não é só pq estou ficando velho não hehehe). Realmente a vida passa muito rápido, agente preenche o tempo com tanta coisa, e ao mesmo tempo, parece que não vivemos nada. E no fim oq nos resta é a solidão, e um pequeno sentimento de ter feito algo na vida...
Mas podia ser pior, ela podia passar o domingo assistindo o Faustão hahahaha =P

ZeRo disse...

"Devemos viver nossas vidas como se todo o mundo nos pudesse ver, como se os mais secretos recantos de nossas almas estivessem expostos ao olhar alheio. Por que haveríamos de esconder o que quer que seja?"
Lucius Annaeus Seneca

Anônimo disse...

Meu amigo Fernando Sabino ou MAchado de Assis, vocë superou e conseguiu transferir para o leitor uma situaçao que voce nao viveu e nao poderia viver.
Gostei da sua maneira objetiva e realista.....
rogerio avelar