segunda-feira, 22 de outubro de 2007

Tina - O espelho portal

Mas não bastava querer, suas perguntas a perseguiam e não lhe obedeceriam, Ela, se tivesse tido a oportunidade de escolher nem teria entrado nesse jogo perigoso, só que as coisas tomaram um rumo inesperado e tudo fugiu ao seu controle, situação dessas logo com ela que sempre fora tão centrada, inteligente e objetiva. Ao passar por ali via sua imagem refletida, foi hipnotizada frente a um rosto que lhe era totalmente familiar, mas que tomava contornos inesperados. Ficava intrigada, a cada novo encontro os seus próprios olhos lhe fascinavam cada vez mais, até que chegou a um ponto em que a curiosidade não lhe permitiu resistir. Empurrou o portão duplo e não sabia que depois de adentrá-lo não poderia sair pela entrada, nem imaginaria que depois daquela viagem jamais seria a mesma.

Depois do portão havia intensa luminosidade, mas Tina não conseguia determinar em qual direção se encontrava o sol, as folhas verdes respingavam ainda o orvalho da madrugada como se há pouco houvesse amanhecido, ou poderia ser uma chuva que acabara cair, mas logo observou que no chão arenoso não havia o menor resquício de água, era apenas areia muito fina e seca que refletia a luz e tomava em alguns momentos o aspecto dourado, como se pó de ouro fosse. O lugar parecia-lhe gigantesco e teve o ímpeto de descobrir aquele mundo novo rapidamente, esqueceu-se da realidade com a qual aprendera a viver, estava em fim entrando em contato com os elementos de sua existência interna que até então estavam escondidos nos recônditos mais sombrios, atrás da máscara que lhe impedia de enxergar-se verdadeiramente em seu reflexo.

Até onde podia se recordar havia evitado tal momento utilizando-se das mais diversas táticas de fuga que o tempo lhe ensinara, e não foram poucas as que teve que gastar em todos aqueles anos correndo para longe dos seus medos. Qual a razão misteriosa daquela outra mulher ela gostaria de descobrir, mas naquele instante não se encontrava à vontade para desenrolar pensamentos lógicos capazes de guiá-la dentro da imensidão de dúvidas e angústias desencadeadas logo após o seu aparecimento. Era um processo doloroso que teria de enfrentar. Ainda que um pouco obrigada pela sucessão de acontecimentos desencontrados topou o desafio.

A angústia de se sentir seguida começava a se refletir na sua vida durante a semana, suas perguntas a caçavam. Em uma ocasião, terça-feira normal de trabalho, sentiu-se tonta logo após levantar-se da cadeira para buscar uma pasta que deixara na outra sala, não conseguiu se manter em pé, caiu. Trombava em sua pressa e sabia que nesses esbarros era ferida pelos espinhos das cercas vivas. Algo escorria pelas suas pernas, eram pequeninos riachos de águas quentes e barrentas que se encontravam no tornozelo e formavam um rio volumoso. O sangue derramando era também a lucidez que se esvaía. As gotas da sua sensatez conduziam os seus monstros ao seu percalço inevitavelmente. Ela deixava para trás um rastro que ajudaria os seus monstros a encurralarem-na, viver aquilo era desesperador.

4 comentários:

d.endo disse...

Carissimo.... adorei ler seu texto.
uma nova surpresa para mim. confesso que gostei muito de suas palavras. e acredito nessa "viagem" de mensagens nas entrelinhas prontas para serem decifradas. uma coisa meio clarice..cheia de mistério.
deixo aqui uma abraço carinhoso...
e cheio de admiracao por esse seu lado escritor.

Unknown disse...

pode alguem ser plenamente feliz se nao se conhece plenamente ou foge do eu-real? acho importante termos consciência de quem somos e sermos felizes do jeito que somos. medos todos tem, faz parte da vida ter que enfrentá-los e superá-los. uma hora agente consegue.. e aí vem a recompensa...a felicidade... sei lá...

Anônimo disse...

Vamos botar essa moça em movimento... como ela tenta fazer no último parágrafo...

ZeRo disse...

"A vida que nós recebemos nos foi dada não para que simplesmente a admiremos, mas para que estejamos sempre à procura de uma nova verdade escondida dentro de nós." - Conde Leon Nikolaievitch Tolstoi