Marie acordou com os olhos inchados, a boca seca, os cabelos desgrenhados e a pele amassada, parecendo que fora vítima de um rolo compressor. Horrorosa. A cidade luz estava apagada, assim como ela. Sua força para se levantar havia ficado em algum lugar, perdida. Na noite anterior, havia experimentado uma roti que parecia não estar tão assada. Mas não podia interferir neste preparo e calou-se. Mais uma vez, Marie calou-se. Não queria desagradar a cliente que de uns tempos pra cá resolveu participar dos preparos tão plenamente dominados por Marie. “A carne não pode ser servida assim...”, “ele prefere desta forma”, “eu sou a anfitriã, ok?”, retrucava Madame François, quando Marie, paciente e doce na sua voz aveludada tentava arrumar o que, previa, não iria ficar bom. Tudo foi em vão e ao final todos pareciam levemente confusos com o que “a saborosa Marie” havia preparado.
Marie se perguntou várias vezes durante o preparo do jantar dos Grimblot, por que ela havia sido contratada se ficou limitada a preparar somente os canapés de entrada para o exclusivo jantar. Não era possível acreditar que havia ficado calada para uma cozinheira de abattoir! Todos aqueles anos no Le Cordon Blue de Paris, estudando todos os cheiros e sabores, se aprimorando e apurando o paladar com os melhores vinhos em Borgonha, disciplinada e dedicada no aprendizado de pratos delicados e sofisticados para atender e dar prazer de comer à sociedade parisiense foram minados a um canapé? Não! Foi um pesadelo, pensou Marie.
A cabeça doía, confirmando que não havia sido um pesadelo para o desespero de Marie. Levantou-se devagar. A primorosa chef sempre satisfeita com seu trabalho, estava ali, desamparada, destemperada, sem gosto, tinha perdido o seu sabor. Parecia uma porcelana quebrada, frágil, sem chances de ser reconstruída. As partes que ainda estavam mais inteiras estavam trincadas e iriam se espatifar em pouco tempo.
Marie suspirou profundamente e então, largou todo o corpo pesado e amassado na cama novamente.
Deitada sobre si mesma ficou quieta como árvore seca, rígida e tensa. Ficou ali, miúda, pequena, diminuída, distante em seu penseé, marcada pela noite perdida, sentindo-se incapaz, vencida. Estava se sentindo injustiçada.
Fuir! Là-bas fuir! Deu o grito que não queria calar.
Respirou profundamente pedindo calma para si própria. Ficou se apalpando, usando as mãos como uma mãe massageia seu bebê, utilizando as técnicas de Shantala. A pele seca parecia precisar ser irrigada pelo toque de mãos úmidas, quentes e aconchegantes. Marie estava desprovida de um colo, de um holding, diria Winnicott.
De repente, num brusco instante, ela estatelou os olhos, ficou alerta e fixou o olhar no teto como se tivesse vendo um vautour à sua frente. Estava explicado!
Madame François começou a interferir no trabalho de Marie desde aquela vez em que a chef havia sido elogiada no jantar dos Villmont. No entanto, o elogio partira do sedutor Gerard, marido, anfitrião e homenageado de François.
Gerard havia sido indicado para coordenar a grande escola de dance, espaço reservado para receber somente as grandes e famosas companhias do mundo, tais como Le Cirque de Soleil, a qual Marie havia comentado ter grande admiração desde que assistira a apresentação do grupo. Tudo parecia perfeito desde a Vichyssoise até o Saint-Honoré de nozes, especialidade de Marie. O marido de François era um homem bonito, sofisticado, comunicativo e atraía a todos com seu jeito galante e primoroso de discursar. Simples, sutil e interessado ouvinte, sempre quis saber dos esforços de Marie para se tornar a profissional que era. Fisicamente era um homem másculo, de olhos azuis profundos, cabelos queimados de sol, de pele trigueira, os ombros largos, fortes, mãos grandes, prontas para fazer um holding, Marie pensou maliciosamente. Ela sempre falava de suas preferências e tipos masculinos e contava do estilo de Gerard em rodas de amigos. Um deus da história da Grécia! Onde estariam mais daqueles homens primorosos? Foram dizimados em alguma guerra? Porque o último era o Gerard e esse já estava casado, brincava.
Suspirou profundamente. A cabeça até parecia que havia parado de doer.
“Senhoras e senhores, esta noite foi primorosa, iluminada e saborosa. Primorosa pela presença de pessoas do meu convívio, tão queridas e admiradas. Iluminada pela surpresa de minha querida esposa em me proporcionar esta homenagem. Mas tenho que dizer que nada teria sido tão prazeroso sem a oportunidade de degustarmos um bom vinho e uma boa comida. E tudo isso só foi possível pelo talento, dedicação e competência da linda e saborosa Marie Lyon!”
Aplausos, risos, comentários, olhares. “Linda e saborosa Marie Lyon”.
Marie pensou, “ele deve ter exagerado no Gran Cru de Borgonha”, sugestão dela também para o evento e que palpitou elogios ao grande vinho pela noite toda.
Entre os olhares, Marie sentiu uma vibração forte em sua direção. Era o olhar afiado e fulminante de madame François que sorria entre dentes. Pareceu-lhe que o final - linda e saborosa Marie - não havia caído bem para alguns.
Gerard parecia não ter percebido que havia provocado um frisson no evento. Marie agradeceu gentilmente e saiu com seu jeito delicado que tanto lhe é peculiar.
Estava explicado. Marie, mais uma vez, estava sendo vítima da ira feminina, acuada por extintos masculinos e perdida entre as grandes mesas e os bons vinhos.
Decidiu que ficaria na cama até o próximo cliente ligar e exigir um jantar preparado somente por ela. Queria dormir e sonhar... com Gerard.
Marie se perguntou várias vezes durante o preparo do jantar dos Grimblot, por que ela havia sido contratada se ficou limitada a preparar somente os canapés de entrada para o exclusivo jantar. Não era possível acreditar que havia ficado calada para uma cozinheira de abattoir! Todos aqueles anos no Le Cordon Blue de Paris, estudando todos os cheiros e sabores, se aprimorando e apurando o paladar com os melhores vinhos em Borgonha, disciplinada e dedicada no aprendizado de pratos delicados e sofisticados para atender e dar prazer de comer à sociedade parisiense foram minados a um canapé? Não! Foi um pesadelo, pensou Marie.
A cabeça doía, confirmando que não havia sido um pesadelo para o desespero de Marie. Levantou-se devagar. A primorosa chef sempre satisfeita com seu trabalho, estava ali, desamparada, destemperada, sem gosto, tinha perdido o seu sabor. Parecia uma porcelana quebrada, frágil, sem chances de ser reconstruída. As partes que ainda estavam mais inteiras estavam trincadas e iriam se espatifar em pouco tempo.
Marie suspirou profundamente e então, largou todo o corpo pesado e amassado na cama novamente.
Deitada sobre si mesma ficou quieta como árvore seca, rígida e tensa. Ficou ali, miúda, pequena, diminuída, distante em seu penseé, marcada pela noite perdida, sentindo-se incapaz, vencida. Estava se sentindo injustiçada.
Fuir! Là-bas fuir! Deu o grito que não queria calar.
Respirou profundamente pedindo calma para si própria. Ficou se apalpando, usando as mãos como uma mãe massageia seu bebê, utilizando as técnicas de Shantala. A pele seca parecia precisar ser irrigada pelo toque de mãos úmidas, quentes e aconchegantes. Marie estava desprovida de um colo, de um holding, diria Winnicott.
De repente, num brusco instante, ela estatelou os olhos, ficou alerta e fixou o olhar no teto como se tivesse vendo um vautour à sua frente. Estava explicado!
Madame François começou a interferir no trabalho de Marie desde aquela vez em que a chef havia sido elogiada no jantar dos Villmont. No entanto, o elogio partira do sedutor Gerard, marido, anfitrião e homenageado de François.
Gerard havia sido indicado para coordenar a grande escola de dance, espaço reservado para receber somente as grandes e famosas companhias do mundo, tais como Le Cirque de Soleil, a qual Marie havia comentado ter grande admiração desde que assistira a apresentação do grupo. Tudo parecia perfeito desde a Vichyssoise até o Saint-Honoré de nozes, especialidade de Marie. O marido de François era um homem bonito, sofisticado, comunicativo e atraía a todos com seu jeito galante e primoroso de discursar. Simples, sutil e interessado ouvinte, sempre quis saber dos esforços de Marie para se tornar a profissional que era. Fisicamente era um homem másculo, de olhos azuis profundos, cabelos queimados de sol, de pele trigueira, os ombros largos, fortes, mãos grandes, prontas para fazer um holding, Marie pensou maliciosamente. Ela sempre falava de suas preferências e tipos masculinos e contava do estilo de Gerard em rodas de amigos. Um deus da história da Grécia! Onde estariam mais daqueles homens primorosos? Foram dizimados em alguma guerra? Porque o último era o Gerard e esse já estava casado, brincava.
Suspirou profundamente. A cabeça até parecia que havia parado de doer.
“Senhoras e senhores, esta noite foi primorosa, iluminada e saborosa. Primorosa pela presença de pessoas do meu convívio, tão queridas e admiradas. Iluminada pela surpresa de minha querida esposa em me proporcionar esta homenagem. Mas tenho que dizer que nada teria sido tão prazeroso sem a oportunidade de degustarmos um bom vinho e uma boa comida. E tudo isso só foi possível pelo talento, dedicação e competência da linda e saborosa Marie Lyon!”
Aplausos, risos, comentários, olhares. “Linda e saborosa Marie Lyon”.
Marie pensou, “ele deve ter exagerado no Gran Cru de Borgonha”, sugestão dela também para o evento e que palpitou elogios ao grande vinho pela noite toda.
Entre os olhares, Marie sentiu uma vibração forte em sua direção. Era o olhar afiado e fulminante de madame François que sorria entre dentes. Pareceu-lhe que o final - linda e saborosa Marie - não havia caído bem para alguns.
Gerard parecia não ter percebido que havia provocado um frisson no evento. Marie agradeceu gentilmente e saiu com seu jeito delicado que tanto lhe é peculiar.
Estava explicado. Marie, mais uma vez, estava sendo vítima da ira feminina, acuada por extintos masculinos e perdida entre as grandes mesas e os bons vinhos.
Decidiu que ficaria na cama até o próximo cliente ligar e exigir um jantar preparado somente por ela. Queria dormir e sonhar... com Gerard.
5 comentários:
Hum... ainda não li os outros textos para comparar, mas assim que comecei a ler, talvez por intuição, ou pelo estilo, achei que era um "Conto de Célia"... depois, alguns elementos no decorrer do texto confirmaram isso, ou estou errado?
P.S. É claro que entendi que a personagem não é a Célia... mas acertei a autora?
Muito bom, muito bom. Cheguei aqui por indicação da Rosangela e quero só ver os outros dois textos, já que o começo foi tão promissor.
E não sabia que tinha jogo de adivinhação com os textos! Como não conheço os autores, abster-me-ei de jogar. Mas não de comentar!
Abs e parabéns.
"Se nos fosse dado o poder mágico de ler na mente uns dos outros, o primeiro efeito seria sem dúvida o fim de todas as amizades." - Bertrand Russell
Lembra um texto inglês do século XVIII!!!
Hehehehehe, é um pouco arrogante, mas muito elegante, sem dúvida.
Acho que um pouquinho menos de citações em francês ficaria perfeito!! Pro meu gosto, claro, que sempre abandonei a Aliança Francesa! rs
Adoro vc, mulek.
Não sabia desse seu talento, que pra mim surge leve, preciosista e sentimental.
Quem diria?
A bebida dos findes ainda não abateu esse coração que decide falar em prosa e verso.
Parabéns!!
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