A porta de entrada era gigante, pesada e difícil de abrir. Ela respirou profundamente e empurrou-a. Valeu o esforço, pois se deparou com uma bonita casa que abria para uma enorme escadaria que dava para os quartos. Ao fundo, via-se um jardim de inverno, rico em flores e perfumes. O assoalho da área externa estava levemente úmido, culpando o orvalho que caiu durante a noite e que também provocava, com a umidade, um delicioso aroma que a troca de perfumes entre as flores proporcionava.
Marie subiu para um dos quartos, de onde se podia ver o divertido e colorido jardim, repleto de madressilvas, jorrando mel e com um perfume bem doce e evocativo, característica da flor, que circundava todo o local. Que sensação boa!
Ainda no jardim observou um girassol gigante, altivo, a planta mais alta dali. “Parece uma flor de sol”, sorriu. As verônicas rastejavam pelo riozinho artificial, deixando partir suas florezinhas na água, parecendo dizer adeus. Marie ficou ali olhando fixamente aquelas flores caindo na água e seguindo um caminho qualquer... Ficou pensando como seria bom poder se despedir de maneira bonita, pois, para ela, dizer adeus, se afastar, lhe parecia tão difícil de fazer. Disse baixinho que estava aprendendo com as flores a graça de dizer adeus! Sorriu satisfeita.
Uma pétula de margarida voou até Marie levantando seus pensamentos para a direção de onde elas estavam. Num canto do jardim, vistosas em um grande ramalhete vivo, as margaridas estavam despertas com a luz do dia que entrava pelo teto de vidro, parecendo chamar Marie para brincar de “Bem me quer, mal me quer”. Lembrou-se dos tempos da menina doce e romântica que fora. Nada mais. Marie era assim, humilde no seu vestido rosa de babado que gostava de vestir e sonhar. Se divertia fazendo coroas de margaridinhas para se “casar”...Adorava fazer poesias de amor.
Finalmente o olhar de Marie fixou-se na flor mais popular do jardim: “la rose”. A flor do amor. Que cheiro bom, Marie pensava enquanto saía da grande janela e caminhava pelo quarto de cortinas florais com papel de parede num tom creme suave. O vento lá fora parecia tocar uma música para as cortinas de tecido leve e transparente se envolverem numa dança sensual. Marie acomodou-se satisfeita na cama. Fechou os olhos, precisava aproveitar aquelas sensações tão boas, tão raras. Queria ficar ali, envolvida nas suas sensações e entregue aos prazeres que tanto buscava sentir.
Naquela casa, estava se permitindo ser quem era. Estava cansada de sempre estar pronta para todos, ser de todos e não ter nenhum ser para estar. Cansada de agir calmamente e com delicadeza em momentos em que estava irritada e disposta a criticar o que quer fosse...Agora podia ao menos estar consigo mesma. Iria aproveitar cada pedacinho da segurança daquela casa, da cama macia e fofa. Estava protegida como um pardalzinho recém-nascido no ninho preparado por uma mãe cuidadosa. Depois iria ao jardim, tocar as flores e sentir o perfume delas de pertinho. Já estava se comprometendo a não cortar e nem colher nenhuma planta. Afinal, a beleza estava ali, viva.
Tudo transbordava vida e Marie queria viver também. Viver de verdade.Queria ser como o jardim, com suas raízes fortes unidas na alegria de viver.
Um vento mais forte empurrou a janela, enrolando as cortinas, o que ficou parecendo uma briga de tecidos. Marie despertou num súbito do seu mais florido sonho. Sentiu um friozinho percorrer seu corpo tão desprotegido. Abriu os olhos doces e amendoados e percebeu pela janela que uma tempestade anunciava que seu dia não seria um sonho de jardim...Suspirou profundamente. Tinha muito a fazer e a desvendar no seu jardim real. Mas decidiu que não seria uma camponesa qualquer naquele dia.
Levantou-se vestida na sua camisola branca com babados florais, cobriu-se com um costume longo e azul marinho e caminhou lentamente em direção aos apetitosos “fraise” que estavam na cozinha.
Ainda tinha um tempo para degustá-los e então, iria se permitir a este prazer, pelo menos na primeira hora daquela manhã cor de chumbo. Ser ela mesma.
sexta-feira, 26 de outubro de 2007
Marie – “Um sonho de jardim”
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3 comentários:
Que tal sairmos do campo dos sonhos, das sensações, dos delírios, do movimento (ou estagnação) psicológica... e botarmos essas moças em contato com o mundo. Agindo.
Gostei mais deste... talvez por não ter tantas citações em francês...hehe! E não vejo problema em colocá-las em alguns momentos nesse campo dos sonhos, sensações, etc. desde que não se esqueça do contato social...
To adorando a subjetividade dessa personagem.
Tá genial esse blog!
Bjos
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