sexta-feira, 28 de dezembro de 2007
Marie – Asas quebradas
Queria acordar longe dali acompanhada de um instinto mais malvado e ágil como uma fera. Estava cheia demais de leite de ternura humana para viver em uma amarga realidade. Não gostaria de agir com falsidade e nem ganhar sem merecer. Mas não havia outra saída. Tudo que lhe prometeram era falsificado como um vinho barato e mal feito. Um gosto amargo desceu por suas entranhas identificando que aquelas sensações também eram suas e tinha que aceitá-las. Conteve-se. As coisas não acontecem por acaso, pensou. Talvez fosse essa a hora de transformar seu mundo em lugar mais belo e mais doce.
Uma faísca de ânimo passou por seus olhos fazendo-os piscar e retornar a sua crua realidade. Estava esgotada e seu tempo na cidade luz era de poucas horas. A nuvem solitária deveria tomar outro rumo, buscar outros vales e colinas, diluir-se em algum mar longe dali. Quem sabe aliada a um oceano pudesse encontrar o que lhe faltava: poder.
Caminhou até sua única acolhedora: sua cama. Envolveu-se nos lençóis que havia desprezado, e aninhou-se como um pássaro de asas quebradas, sem forças para voar. Adormeceu novamente em meio ao travesseiro úmido de sua dor.
A moça de asas quebradas queria ser recuperada por um anjo bom que lhe emprestaria suas asas e juntos voariam para bem longe dali rumo ao encontro do amor e da paz.
quarta-feira, 26 de dezembro de 2007
Adele - O Bolo
Com a cautela de um aprendiz na execução dos seus primeiros trabalhos, Adele experimentava seu poder na culinária. Colocara todas as recomendações sugeridas na panela, misturando-as suavemente em fogo brando. Depositara em seu preparo uma voluptuosa esperança de ver o seu bolo crescer forte e saudável.
Com um simples movimento da mão _ quando batia os ovos ou manuseava o recheio _ ela operava a transformação das substâncias; a matéria tornava-se um ser que pulsava vida. Da agilidade no contato com a mão; a massa, ao ser amassada, ganhava um novo valor. Era um momento mágico, cheio de doce ansiedade.
No entanto, com pressa de fazê-lo bem feito, Adele não tivera paciência o suficiente para esperá-lo atingir sua plenitude. Ao sair do forno, o bolo saiu timidamente, quase sem fazer barulho. Murcho, indefeso e sem vida. Contemplando-o, ela suspirou. Em suas mãos jazia apenas um corpo inerte. Estéril por dentro, cheio de uma pálida indiferença.
Ela só pensava no que fizera de errado. Esquecera alguma coisa? Será que a combinação dos ingredientes não tinha sido a mais adequada? Ou será que faltara uma xícara a mais de decisão? Ou quem sabe, uma pitada a mais de confiança seria o diferencial?
As dúvidas continuaram e lembrou-se que sua mãe havia esquecido de dizer que talvez aquela fosse a melhor maneira dela fazer o bolo. Adele se questionava se havia uma única maneira de prepará-lo “corretamente”. Naquele instante, ela percebia, com muita clareza, que havia também acertado em alguns pontos. Talvez, ela tivesse que encontrar a "sua maneira" de fazer a receita.
quinta-feira, 6 de dezembro de 2007
Adele - A Rosa Branca
Durante o banho, ela se acariciava como uma mãe zelosa. Aquelas primeiras carícias eram um gesto de amor. O acolhimento do filho faminto ao seio materno. Os braços enlaçando o seu corpo de fêmea como um refúgio e proteção. Fechava os olhos para se entregar inteiramente a esse deleite. Era o desejo explodindo em sua carne.
Uma perturbação a invadia por inteiro. Seu corpo ardia e um comichão corria pela espinha. Um doce cansaço a envolvia ao sentir a leve pressão de suas mãos. Eram cócegas provocadas pelo roçar dos dedos dentro de sua alma. A verdadeira fruição da liberdade.
Soltou um espasmo, lânguido e longo. Ela conseguira atingir o interior de si mesma. Conseguira explorar as suas mais profundas e secretas trevas.
Não havia resistência. Havia apenas um alegre abandono. Uma febre que a libertava temporariamente. Mágica e ao mesmo tempo assustadora.
Deixou-se ficar abandonada na água, quieta; sentindo-se acolhida por aquele abraço morno durante um tempo. Levantou-se da banheira calmamente e vestiu o roupão. Era só ela. Nada poderia substituir esse encontro amoroso consigo mesma. Estava feliz. Liberta. Era isso que importava.
segunda-feira, 26 de novembro de 2007
Tina - O final de semana no quarto
O que lhe pareceu uma eternidade foram apenas os dez minutos que Daiane levou indo até a cozinha fazer uma compresse para resfriar a amiga que ardia em febre. Tina ouviu a porta do quarto ranger. Fui buscar gelo e água, você tava ardendo em febre. Mas acho que está passando, você tá toda molhada. Não precisa ficar nervosa, logo logo passa e tudo vai ficar bem, viu?
Tina escutava aquela voz tão querida e se sentiu mais segura, a calma lhe voltava em doses homeopáticas, imaginava que cada palavra de apoio naquele momento era um remédio que a livraria do castigo da morte. Obrigada por tudo! Daiane ficou ao seu lado até o dia seguinte. Fez sopa, deu banho, e se esforçou para se transformar numa fortaleza e dar o apoio necessário à amiga. Foi assim até o domingo, quando finalmente cessou a hemorragia e Tina conseguiu se levantar.
Na noite anterior viveu um pesadelo. A culpa era o sentimento dominante, sentiu que seria castigada pelo seu ato o resto da vida, era uma assassina e sabia que merecia pagar pela vida que roubou.
Quando a poeira baixou e o ar se tornou calmo de novo, a menina, com um sorriso no rosto, perguntou em tom doce: Mamãe, por que eu não nasci?
quarta-feira, 14 de novembro de 2007
Adele - Domingo
Adele esfregara os olhos naquele instante. Quando tornou a olhar novamente as folhas, reparara que eram as mesmas de antes, brancas e inabitadas de sempre. Talvez fora o cansaço que a deixara naquele estado de sonolência.
Estava tão imersa em seus pensamentos que havia esquecido por completo o que fazia, só voltou a realidade quando percebeu que derrubara a caneta vermelha no chão. Aproveitou o momento e se espreguiçou tranqüilamente como uma gata manhosa. Precisava de uma xícara de café urgente. Levantou-se, dirigiu-se até a cozinha e tomou um grande gole com vontade. Olhou para o relógio e percebeu que era tarde.
Voltou para a prancheta e olhou meio desatenta para os croquis espalhados. Tinha concluído boa parte do projeto. Faltavam apenas dois cortes da planta. Seus trabalhos sempre rendiam mais a noite do que na parte da manhã, momento em que não estava completamente desperta. O silêncio da noite ajudava-lhe a se concentrar melhor. No entanto, por mais que tentasse continuar o trabalho, seus pensamentos tomavam um outro caminho, se perdendo em meio a uma névoa branca que invadia de tempos em tempos a estrada.
Adele odiava os domingos. Procurava sempre preencher com alguma ocupação as horas vazias do dia. Depois do almoço, ela tinha ido andar um pouco pelo centro da cidade, quando vira uma imagem que a consternara. Vira uma gata ainda filhote, ferida, os bigodes queimados. Mancava com a pata machucada e parecia miar de fome.
Procurava não pensar muito no assunto, mas com grande insistência a imagem conseguia ludibriá-la e reaparecia com mais força em sua mente. Aquela imagem que não durara mais do que dois minutos, provocara nela uma dor aguda, lacerante no peito tal como o corte afiado da faca na carne. Sentia medo. Havia o medo de continuar sozinha como aquela gata na rua. Assustada e ferida. Abandonada a sua própria dor.
segunda-feira, 12 de novembro de 2007
Tina - A menina
Subitamente as correntes de ar se calaram. Tina pôde abrir os olhos e enxergar, ainda em meio a cortinas de poeira que baixavam, uma criança. Tratava-se de uma pequena menina, toda vestida de domingo, com vestidinho de rendas azuis extremamente claras e fitinhas na mesma cor, amarradas nos cabelos castanhos ondulados que lhe batiam à cinturinha fina e marcada por uma faixa branca com detalhes em florezinhas em vários tons de azuis. Percebeu que a menina, apesar de aparentar nove ou dez anos, já estava formando um corpo de mulher. Aquilo lhe dava mais doçura ainda, pois os contornos da cintura, realçados com a faixa, lhe deixavam parecida com uma pequena boneca de porcelana.
Seu rostinho era ainda angelical com bochechas realçando sua inocência e doçura. Aqueles traços não eram estranhos à Tina, aquela menina tinha a fisionomia de alguém próximo a ela. Buscou em sua memória as imagens semelhantes àquele quadro que ali se formara, uma encantadora garota de vestidinho com plantas de espinhos verde-escuras ao fundo. O fundo verde lhe trouxe a lembrança da grama da pracinha onde os pais a levavam para brincar nos finais de semana. Lembrou-se da foto que sua mãe mantinha no porta-retrato de sua cabeceira. Ao pensar na mãe, conseguiu finalmente reconhecer na menina os traços de sua família. Agora que não havia nada entre as duas, a constatação lhe pareceu óbvia. Sim, não havia dúvidas. Aquele pequeno ser, inegavelmente, fazia parte de sua própria família. O grau de parentesco era muito próximo.
sexta-feira, 2 de novembro de 2007
Marie – O amor é benigno
Mas ela estava feliz pela amiga. Sabia que iria encontrar um novo amor tão benigno quanto o dela. E não era inveja, era desejo de continuar a acreditar no amor. Por que o lema de Marie sempre fora o de não desistir nunca. Então, preferiria ser feliz a ser triste. Iria encontrar outro cristal para cuidar e amar verdadeiramente.
quarta-feira, 31 de outubro de 2007
Adele - A Caçada
Naquele momento, estava faminta, seu corpo gritava insaciável por carne humana. Apesar da fome, ela sabia que precisava escolher muito bem a sua vítima, não provaria qualquer alimento. Podia sentir no ar o aroma adocicado do sangue dos homens. O cheiro a embriagava, atordoava os sentidos e lhe provocava vertigens. Era o refresco para sua alma sedenta num dia de calor.
O tempo todo permaneceu alerta, como um cão vigilante que guarda a casa. Olhou ao redor e avistou, dentre muitos homens, um que lhe pareceu a presa perfeita. Cobiçou-o com desejo por um bom tempo. Espreitou a sua vítima como uma cobra prestes a dar o bote e se aproximou cautelosamente como se não quisesse assustá-la ou intimidá-la. Era uma vampira.
Chegou ao bar, pediu uma vodca e bebeu com vontade, tranqüila, imperturbável. Concentrou o seu olhar na bebida. Sabia que estava sendo observada. Desejada.
– Está sozinha?
Ele tinha mordido a isca. Era o seu dia de sorte!
Adele virou-se em direção ao homem ao seu lado. Não escaparam aos seus olhos afiados os detalhes das mãos grandes e fortes, o caimento da roupa ao marcar o contorno preciso do corpo viril, a barba rala por fazer, o desenho dos lábios finos e avermelhados, os cachos desalinhados que compunham a bela moldura do rosto, o pescoço branco-macio. Ela sentiu um leve estremecimento percorrer o corpo, como uma febre passageira, uma moleza depois de um banho morno.
– Não. Mostrou o copo cheio.
Caminhou para o lado oposto ao dele numa tentativa de sair. Ele notando o movimento, segurou sensualmente o braço da sua companheira. O contato daquelas mãos no corpo dela, acionara o botão vermelho-alerta, que ligava a descarga de eletricidade e fazia a energia percorrer toda a maquinaria do corpo humano. Como se tivesse aberto a caixa de Pandora, encontrou ali sentimentos antes adormecidos, ansiosos para se verem libertos. Sentiu um turbilhão de sensações. Um comichão correr pela espinha. A dilatação das artérias aumentar. O tremor desgovernado nas pernas. Nos braços. As mãos ficaram frias. O corpo suado. O estômago revirado. A boca seca. A garganta entalada. A visão embaralhada. A cabeça transtornada. As batidas do coração. Aceleradas. A respiração curta. Apressada. Uma falta de ar... Um terrível sufocamento.
Ele sorriu para ela.
– Ele é ciumento?
– Geralmente sim. Mas ele me liberou por hoje.
Ele se aproximou dela e segurou suas mãos.
– Dança?
– Sim. Mas a noite não está boa para dançar.
– Não? Então está boa pra fazer o quê?
Ela olhou diretamente nos olhos dele. Maliciosamente.
– Para aproveitar melhor a companhia das pessoas, por exemplo.
– Talvez esse não seja o melhor lugar para apreciar uma boa companhia.
– Alguma sugestão?
Ele sorriu triunfante.
– Eu te mostro.
Puxou-a pela cintura com firmeza e conduziu-a até a saída. Pagou as bebidas. Saíram do bar e dirigiram-se até o carro dele.
Era o seu dia de sorte. Naquela noite, ela era a predadora.
sexta-feira, 26 de outubro de 2007
Marie – “Um sonho de jardim”
A porta de entrada era gigante, pesada e difícil de abrir. Ela respirou profundamente e empurrou-a. Valeu o esforço, pois se deparou com uma bonita casa que abria para uma enorme escadaria que dava para os quartos. Ao fundo, via-se um jardim de inverno, rico em flores e perfumes. O assoalho da área externa estava levemente úmido, culpando o orvalho que caiu durante a noite e que também provocava, com a umidade, um delicioso aroma que a troca de perfumes entre as flores proporcionava.
Marie subiu para um dos quartos, de onde se podia ver o divertido e colorido jardim, repleto de madressilvas, jorrando mel e com um perfume bem doce e evocativo, característica da flor, que circundava todo o local. Que sensação boa!
Ainda no jardim observou um girassol gigante, altivo, a planta mais alta dali. “Parece uma flor de sol”, sorriu. As verônicas rastejavam pelo riozinho artificial, deixando partir suas florezinhas na água, parecendo dizer adeus. Marie ficou ali olhando fixamente aquelas flores caindo na água e seguindo um caminho qualquer... Ficou pensando como seria bom poder se despedir de maneira bonita, pois, para ela, dizer adeus, se afastar, lhe parecia tão difícil de fazer. Disse baixinho que estava aprendendo com as flores a graça de dizer adeus! Sorriu satisfeita.
Uma pétula de margarida voou até Marie levantando seus pensamentos para a direção de onde elas estavam. Num canto do jardim, vistosas em um grande ramalhete vivo, as margaridas estavam despertas com a luz do dia que entrava pelo teto de vidro, parecendo chamar Marie para brincar de “Bem me quer, mal me quer”. Lembrou-se dos tempos da menina doce e romântica que fora. Nada mais. Marie era assim, humilde no seu vestido rosa de babado que gostava de vestir e sonhar. Se divertia fazendo coroas de margaridinhas para se “casar”...Adorava fazer poesias de amor.
Finalmente o olhar de Marie fixou-se na flor mais popular do jardim: “la rose”. A flor do amor. Que cheiro bom, Marie pensava enquanto saía da grande janela e caminhava pelo quarto de cortinas florais com papel de parede num tom creme suave. O vento lá fora parecia tocar uma música para as cortinas de tecido leve e transparente se envolverem numa dança sensual. Marie acomodou-se satisfeita na cama. Fechou os olhos, precisava aproveitar aquelas sensações tão boas, tão raras. Queria ficar ali, envolvida nas suas sensações e entregue aos prazeres que tanto buscava sentir.
Naquela casa, estava se permitindo ser quem era. Estava cansada de sempre estar pronta para todos, ser de todos e não ter nenhum ser para estar. Cansada de agir calmamente e com delicadeza em momentos em que estava irritada e disposta a criticar o que quer fosse...Agora podia ao menos estar consigo mesma. Iria aproveitar cada pedacinho da segurança daquela casa, da cama macia e fofa. Estava protegida como um pardalzinho recém-nascido no ninho preparado por uma mãe cuidadosa. Depois iria ao jardim, tocar as flores e sentir o perfume delas de pertinho. Já estava se comprometendo a não cortar e nem colher nenhuma planta. Afinal, a beleza estava ali, viva.
Tudo transbordava vida e Marie queria viver também. Viver de verdade.Queria ser como o jardim, com suas raízes fortes unidas na alegria de viver.
Um vento mais forte empurrou a janela, enrolando as cortinas, o que ficou parecendo uma briga de tecidos. Marie despertou num súbito do seu mais florido sonho. Sentiu um friozinho percorrer seu corpo tão desprotegido. Abriu os olhos doces e amendoados e percebeu pela janela que uma tempestade anunciava que seu dia não seria um sonho de jardim...Suspirou profundamente. Tinha muito a fazer e a desvendar no seu jardim real. Mas decidiu que não seria uma camponesa qualquer naquele dia.
Levantou-se vestida na sua camisola branca com babados florais, cobriu-se com um costume longo e azul marinho e caminhou lentamente em direção aos apetitosos “fraise” que estavam na cozinha.
Ainda tinha um tempo para degustá-los e então, iria se permitir a este prazer, pelo menos na primeira hora daquela manhã cor de chumbo. Ser ela mesma.
quarta-feira, 24 de outubro de 2007
Adele - O buraco negro
O medo, animal feroz e faminto, se aproximava. Ele invadia os quartos amplos do seu labirinto, perseguindo-a incansavelmente pelos corredores do seu inconsciente. Queria esmagá-la com sua pata gorda-gigante para alimentar-se de suas forças. O medo aumentava todos os dias e estava aniquilando-a como um buraco negro dentro da sua existência. Ela sabia apenas que ele não conseguiria dominá-la.
De repente, lembrou-se de um texto que lera de Camus outro dia, que dizia que a morte era uma questão verdadeiramente existencial, pois todos os dias as pessoas optavam ou não pela vida. Ele atribuía alguns motivos para as pessoas optarem pelo desejo de não continuarem vivas, e o principal deles era a falta de significado que a vida lhes proporcionava. Se de fato as pessoas optavam diariamente pela vida, por que algumas prolongavam por anos essa dor de existir infinitamente? Afinal, o representava a vida? Que sentido ou significado poderia ser atribuído a ela? No momento, Adele não tinha respostas para estas e para muitas outras perguntas.
No entanto, ela podia sentir o vazio, o silêncio interior consumindo-a por dentro. A nudez fria da solidão cortava o seu corpo como a rigidez de uma faca. Era uma sensação de estrangulamento. Por longas horas. Prolongada infinitamente. Como despertando de um sono, sentou-se na cama e começou a chorar.
segunda-feira, 22 de outubro de 2007
Tina - O espelho portal
Depois do portão havia intensa luminosidade, mas Tina não conseguia determinar em qual direção se encontrava o sol, as folhas verdes respingavam ainda o orvalho da madrugada como se há pouco houvesse amanhecido, ou poderia ser uma chuva que acabara cair, mas logo observou que no chão arenoso não havia o menor resquício de água, era apenas areia muito fina e seca que refletia a luz e tomava em alguns momentos o aspecto dourado, como se pó de ouro fosse. O lugar parecia-lhe gigantesco e teve o ímpeto de descobrir aquele mundo novo rapidamente, esqueceu-se da realidade com a qual aprendera a viver, estava em fim entrando em contato com os elementos de sua existência interna que até então estavam escondidos nos recônditos mais sombrios, atrás da máscara que lhe impedia de enxergar-se verdadeiramente em seu reflexo.
Até onde podia se recordar havia evitado tal momento utilizando-se das mais diversas táticas de fuga que o tempo lhe ensinara, e não foram poucas as que teve que gastar em todos aqueles anos correndo para longe dos seus medos. Qual a razão misteriosa daquela outra mulher ela gostaria de descobrir, mas naquele instante não se encontrava à vontade para desenrolar pensamentos lógicos capazes de guiá-la dentro da imensidão de dúvidas e angústias desencadeadas logo após o seu aparecimento. Era um processo doloroso que teria de enfrentar. Ainda que um pouco obrigada pela sucessão de acontecimentos desencontrados topou o desafio.
A angústia de se sentir seguida começava a se refletir na sua vida durante a semana, suas perguntas a caçavam. Em uma ocasião, terça-feira normal de trabalho, sentiu-se tonta logo após levantar-se da cadeira para buscar uma pasta que deixara na outra sala, não conseguiu se manter em pé, caiu. Trombava em sua pressa e sabia que nesses esbarros era ferida pelos espinhos das cercas vivas. Algo escorria pelas suas pernas, eram pequeninos riachos de águas quentes e barrentas que se encontravam no tornozelo e formavam um rio volumoso. O sangue derramando era também a lucidez que se esvaía. As gotas da sua sensatez conduziam os seus monstros ao seu percalço inevitavelmente. Ela deixava para trás um rastro que ajudaria os seus monstros a encurralarem-na, viver aquilo era desesperador.
sexta-feira, 19 de outubro de 2007
Marie
Marie se perguntou várias vezes durante o preparo do jantar dos Grimblot, por que ela havia sido contratada se ficou limitada a preparar somente os canapés de entrada para o exclusivo jantar. Não era possível acreditar que havia ficado calada para uma cozinheira de abattoir! Todos aqueles anos no Le Cordon Blue de Paris, estudando todos os cheiros e sabores, se aprimorando e apurando o paladar com os melhores vinhos em Borgonha, disciplinada e dedicada no aprendizado de pratos delicados e sofisticados para atender e dar prazer de comer à sociedade parisiense foram minados a um canapé? Não! Foi um pesadelo, pensou Marie.
A cabeça doía, confirmando que não havia sido um pesadelo para o desespero de Marie. Levantou-se devagar. A primorosa chef sempre satisfeita com seu trabalho, estava ali, desamparada, destemperada, sem gosto, tinha perdido o seu sabor. Parecia uma porcelana quebrada, frágil, sem chances de ser reconstruída. As partes que ainda estavam mais inteiras estavam trincadas e iriam se espatifar em pouco tempo.
Marie suspirou profundamente e então, largou todo o corpo pesado e amassado na cama novamente.
Deitada sobre si mesma ficou quieta como árvore seca, rígida e tensa. Ficou ali, miúda, pequena, diminuída, distante em seu penseé, marcada pela noite perdida, sentindo-se incapaz, vencida. Estava se sentindo injustiçada.
Fuir! Là-bas fuir! Deu o grito que não queria calar.
Respirou profundamente pedindo calma para si própria. Ficou se apalpando, usando as mãos como uma mãe massageia seu bebê, utilizando as técnicas de Shantala. A pele seca parecia precisar ser irrigada pelo toque de mãos úmidas, quentes e aconchegantes. Marie estava desprovida de um colo, de um holding, diria Winnicott.
De repente, num brusco instante, ela estatelou os olhos, ficou alerta e fixou o olhar no teto como se tivesse vendo um vautour à sua frente. Estava explicado!
Madame François começou a interferir no trabalho de Marie desde aquela vez em que a chef havia sido elogiada no jantar dos Villmont. No entanto, o elogio partira do sedutor Gerard, marido, anfitrião e homenageado de François.
Gerard havia sido indicado para coordenar a grande escola de dance, espaço reservado para receber somente as grandes e famosas companhias do mundo, tais como Le Cirque de Soleil, a qual Marie havia comentado ter grande admiração desde que assistira a apresentação do grupo. Tudo parecia perfeito desde a Vichyssoise até o Saint-Honoré de nozes, especialidade de Marie. O marido de François era um homem bonito, sofisticado, comunicativo e atraía a todos com seu jeito galante e primoroso de discursar. Simples, sutil e interessado ouvinte, sempre quis saber dos esforços de Marie para se tornar a profissional que era. Fisicamente era um homem másculo, de olhos azuis profundos, cabelos queimados de sol, de pele trigueira, os ombros largos, fortes, mãos grandes, prontas para fazer um holding, Marie pensou maliciosamente. Ela sempre falava de suas preferências e tipos masculinos e contava do estilo de Gerard em rodas de amigos. Um deus da história da Grécia! Onde estariam mais daqueles homens primorosos? Foram dizimados em alguma guerra? Porque o último era o Gerard e esse já estava casado, brincava.
Suspirou profundamente. A cabeça até parecia que havia parado de doer.
“Senhoras e senhores, esta noite foi primorosa, iluminada e saborosa. Primorosa pela presença de pessoas do meu convívio, tão queridas e admiradas. Iluminada pela surpresa de minha querida esposa em me proporcionar esta homenagem. Mas tenho que dizer que nada teria sido tão prazeroso sem a oportunidade de degustarmos um bom vinho e uma boa comida. E tudo isso só foi possível pelo talento, dedicação e competência da linda e saborosa Marie Lyon!”
Aplausos, risos, comentários, olhares. “Linda e saborosa Marie Lyon”.
Marie pensou, “ele deve ter exagerado no Gran Cru de Borgonha”, sugestão dela também para o evento e que palpitou elogios ao grande vinho pela noite toda.
Entre os olhares, Marie sentiu uma vibração forte em sua direção. Era o olhar afiado e fulminante de madame François que sorria entre dentes. Pareceu-lhe que o final - linda e saborosa Marie - não havia caído bem para alguns.
Gerard parecia não ter percebido que havia provocado um frisson no evento. Marie agradeceu gentilmente e saiu com seu jeito delicado que tanto lhe é peculiar.
Estava explicado. Marie, mais uma vez, estava sendo vítima da ira feminina, acuada por extintos masculinos e perdida entre as grandes mesas e os bons vinhos.
Decidiu que ficaria na cama até o próximo cliente ligar e exigir um jantar preparado somente por ela. Queria dormir e sonhar... com Gerard.
Adele
Se lá fora existia o silêncio, o grito mudo queria explodir dentro do apartamento de Adele. Ela roía as unhas impaciente, tentando em vão controlar a ansiedade que a dominava. Escorria água dos cabelos curtos e molhados, ferindo os ombros nus como picadas de mosquito, a camiseta mal cobria a alvura das suas coxas, mas não era isso que a perturbava. Descalça, andava pela casa, sem rumo, sem direção certa. Andava mais pelo comando das pernas do que pela consciência do que fazia.
Uma raiva intensa começou a surgir. Incontrolável. Prestes a romper como a lava espessa, quente e borbulhante do vulcão em erupção. Era uma mulher de temperamento forte e de pavio curto. Impulsiva. Paciência e calma eram duas palavras que não existiam no vocabulário de Adele.
Estava esperando há horas e nenhum telefonema, nenhuma mensagem, nenhuma porra de resposta. Ela estava cansada disso. Quem o filho da puta pensava que ela era? Alguma trouxa? Ele achava que ela era burra? Que não percebia as coisas? Mas isso não ia ficar assim, não! Por que ela não era mulher de agüentar desaforo calada. Se ele estava aprontando alguma, ele ia se fuder. Por que ela daria o troco e seria pior, muito pior. Se ele realmente pensava que ela ficar ali esperando feito uma idiota por ele, estava completamente enganado. Se ele achava que ela ia ficar chorando pelos cantos...o cacete. Por que ela faria pior, muito pior.
Agora que eles estavam conseguindo lidar melhor com as diferenças, ele aprontava com ela. Há seis meses moravam juntos, esta era a terceira vez que ele desaparecia sem dar a menor satisfação. Ela já tinha agüentado demais. Ele realmente não sabia do que ela era capaz.
Resolveu se sentar no peitoril da janela e olhar a bela noite que fazia. Ao invés de acalmá-la, a tranqüilidade da noite lhe irritou profundamente. O tempo ia passando devagar como se não tivesse pressa em devorá-la. Preferia matá-la aos poucos.
O jantar, que fora preparado com tanto cuidado, havia esfriado. Na casa, as janelas observavam os pratos vazios, os talheres inúteis, a comida insensível à dor daquela que a prepara a pouco. O gosto amargo do ódio subia-lhe pelo estômago e dava-lhe uma azia terrível.Num súbito impulso, ela saiu correndo em direção ao quarto. Abriu o guarda-roupa e atirou as roupas dele sobre a cama. Jogou-as indistintamente, sem piedade sobre a mala que havia embaixo da cama. Depois de fechar bem a mala, colocou-a no corredor lá fora. Em seguida, escolheu um vestido, o mais decotado, o mais curto e abusado que tinha no guarda-roupa. Olhou-o demoradamente. Namorou por um longo tempo. Então, tirou a camiseta, e colocou-o sobre o corpo. Pegou as sandálias de salto, calçou-as e olhou-se no espelho cheia de malícia. Logo depois, apanhou a bolsa e caiu na noite.