quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Adele - Quarta-feira de Cinzas

Enquanto as fantasias e máscaras se confundiam na multidão, a serpentina e o confete enfeitavam com suas cores as calçadas. E as risadas, as cantorias e batucadas enchiam de vida as ruas. Ainda havia resquícios do carnaval na cidade.

À medida que Adele caminhava em direção a praia, o barulho ia ficando mais distante. Só havia o som das ondas chicoteando o ar. Ali ela não seria incomodada.

Quando parou para olhar o mar, notou a presença de um rapaz não muito longe dela. Ele virou-se em sua direção e sorriu.

- Você está fugindo da multidão?
- Parece que não sou a única.
- É verdade.
- O mar estava me chamando, eu não podia recusar o seu convite.
- Acho que ele não vai se importar se tiver mais uma pessoa como companhia.


Os dois em silêncio contemplam a paisagem noturna. Alegre, Adele entra no mar e o convida a se juntar a ela. No entanto, um pouco tonta por causa da bebida, ela tropeça e cai. O jovem, que a observava atentamente, corre em seu socorro.

Uma onda mais forte o desequilibra e faz com que ele caia por cima dela. Ambos rolam pelo chão e começam a rir. Ao tentar levantá-la, ele toca no corpo dela com firmeza, ela finge não notar o movimento, mas os seus olhos não conseguem evitar o olhar intenso que ele transmite.

Num impulso, o rapaz vira-se para o lado dela e a agarra, como um animal ao ver carne. Apesar da resistência inicial da moça, ele beija-a com voracidade. A hesitação dela não demora muito a ceder, que aceita as carícias com volúpia.

Extasiada, a jovem inexperiente se entrega sem reservas aos ardis do lobo, que impaciente pela fome, devora a sua presa com violência. Ela sente uma dor atroz penetrar o seu âmago, como uma flor que é arrancada do asfalto. Uma mutilação e tortura interior.

Adele é iniciada no gesto de amor, enquanto os primeiros raios de sol aparecem no horizonte, iluminando as latas de cervejas e garrafas vazias espalhadas pelo chão.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Adele - O Mar e o Vento

O sol saudava a manhã nublada. As folhas das palmeiras se agitavam ao longe, enquanto soprava forte em direção ao mar. As águas balançavam ao sabor do vento, acompanhando os movimentos como numa grande dança.
Adele estava tão entretida construindo os seus castelos na areia que não percebera os movimentos da natureza ao seu redor. Quando o ar se escureceu repleto de nuvens de poeira, ela comprimiu os olhos e olhou para o céu. Havia uma escura cortina de chuva que se deslocava em sua direção, formando ondas cinzentas. Um uivo incessante encheu os seus ouvidos, enquanto o vento puxava suas roupas com dedos invisíveis. Logo, começou a chover e a chuva estava fria como gelo. Ela estava ensopada e tremendo, quando pensou em algo horrível.
A fúria do vendaval atingiu as muralhas do castelo como um golpe de martelo. Com um ataque violento, arrasou as entradas e aposentos reais. O vento lutou c/ a fortificação por um segundo, mas, com um último golpe, conseguiu vencê-lo. Adele respirou fundo.
Os castelos que ela construíra na areia foram destruídos pela força do vento. Restou apenas uma massa disforme no lugar.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Marie - A partida

Marie colocou as pesadas malas no chão. Empurrou a pesada porta e virou-se lentamente. Massageou as frágeis mãos. Teria que carregar parte de suas experiências vividas. Não tinha como deixá-las fora das malas. Não havia como recusá-las. No entanto, deixaria outras coisas para trás. Seguiria um novo caminho. Uma nova vida estava por vir. Levaria o necessário. O suficiente. Mas faltava um último olhar por aquela casa que seria abandonada em instantes.
Com os grandes e molhados olhos castanhos, fitou a casa em que havia vivido suas grandes experiências. Aquele lugar estava emaranhado dos segredos de Marie. E quem conseguiria viver num lugar que já estava definido como sendo do outro? O certo seria um ritual de fogo, pensou. Ela recomeçaria das cinzas longe dali. Jurou.
Tudo parecia adormecido naquela casa que seria abandonada em instantes. A própria Marie parecia estar num corpo dormente e estranho. O corpo sempre vivo e desperto agora parecia anestesiado. Talvez fosse uma forma de defesa para protegê-la e fazê-la despertar aos poucos para a realidade que a esperava lá fora, do outro lado do mundo.

Olhou os móveis que jaziam sob lençóis brancos. Conseguiu observar o sofá de tecido florido herdado da avó. Marie gostava de repousar naquele sofá. Lembrava da menina antiga guardada em sua memória que adorava ouvir histórias de mulheres e homens bons. Agora as flores do sofá pareciam ter murchado e o que se podia ver eram apenas alguns borrões vermelhos e brancos.
Continuou passeando seu olhos molhados por aquele espaço ainda seu. As persianas da varanda estavam entreabertas e deixavam vir uma fragrância de lírios trazida pelo vento, que soprava lá fora suavizando a despedida daquele lugar.Percebeu que havia esquecido de cobrir o quadro “Les Deux Chevals”. Logo aquela obra que mais gostava. Teria que adotar uma nova postura, pensou observando a figura altiva dos cavalos naquele quadro. Decidiu que seria mais corajosa, impetuosa e indomada. Passaria a ser mais firme como o andar das patas ágeis daqueles animais.
Sorriu. Enxugou o rosto. Levaria o quadro consigo. Colocou os óculos escuros, seu amigos inseparáveis. O chauffeur havia chegado para levá-la para bem longe dali.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Adele - O Urso Polar

Estava numa estrada deserta vagando sozinha, perdida em meio a espessa neblina. Havia apenas uma bruma densa, que invadia o seu horizonte. Adele andava pela estrada sem rumo e não conseguia enxergar por causa da intensa neblina que engolia a tudo com voracidade.
A chuva caía sob o seu corpo como finos véus que lhe impediam de enxergar com nitidez. Não sabia onde estava; sabia apenas que era tragada por uma força que vinha do útero da terra. A força atacava com violência e a jogava pelo chão.
Quando abriu os olhos, percebeu que um urso polar branco a observava com seus olhos negros, como se estivessem atraídos magneticamente a sua pessoa. Não havia para onde fugir. Lutar era inútil.
Num grande abraço, o urso conseguiu com sua grande pata esmagar os ossos de seu corpo. O grito de dor não saía da sua boca. Apenas um gemido surdo era emitido. A dor que sentia era tão grande que se parecia com uma broca perfurando o duro asfalto. Insensível. Lentamente. Quebrava o seu interior em pedaços, dilacerando a sua alma, rompendo intransigente as camadas superficiais de suas resistências. Era uma compressão forte no peito; o peso morto de um muro de concreto sobre ele. O sangue tingia o chão como um tapete vermelho de veludo. Sentia-se tão solitária quanto a lua no céu num dia ensolarado. Subjugada. Abandonada.
Tudo começou a perder os contornos e tornou-se um borrão indistinto. Um clarão intenso aparecia distante. Não conseguia enxergar. Abriu os olhos e viu-se sozinha no seu quarto. Na sua cama. Eram os raios de sol que entravam pela janela. Ainda restavam duas horas.Virou-se de lado e voltou a dormir.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Adele - O fruto proibido

Os fogos no céu anunciavam o novo ano que se iniciava. A maioria das pessoas contemplava maravilhada a explosão de cores no ar. Menos Adele.

Satisfeita, ela olhava o homem deitado ao seu lado, que dormia tranqüilamente. Observava atentamente os detalhes do seu corpo viril com uma ternura voraz. Analisava cada parte como se estivesse contemplando uma obra de arte. Um Apolo de carne e osso.

Sua pele branca era tão sedosa e aveludada que Adele tinha vontade de mordê-la infinitamente. Ela exalava um cheiro adocicado que a deixava extasiada.

Voltou a se deitar e ele instintivamente a envolveu num abraço acolhedor. Ela sentiu o contato dos cachos desalinhados e a maciez da barba dele no pescoço, o que lhe provocou cócegas como o roçar de penas no corpo.

Estava ainda embriagada do sumo quente que vinha da sua boca. Era um refresco para sua alma sedenta num dia de calor.

Os olhos dela brilharam e uma alegria a invadiu por dentro. Ele era a manga rosa que há tempos ela cobiçava e queria provar.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

Marie – Asas quebradas

Dois longos raios de sol entraram pelas fendas das dobradiças salvando Marie da noite anterior. Empurrou os lençóis e dirigiu-se até o espelho. Queria ser grande, mas lhe faltava ambição. Era franca, ingênua. Num gesto involuntário, acariciou aquele rosto refletido de dor e desespero. A face macia estava endurecida como uma muralha de pedra. Seus cabelos despenteados tentavam suavizar aquela imagem perdida num vazio eterno. Em vão.

Queria acordar longe dali acompanhada de um instinto mais malvado e ágil como uma fera. Estava cheia demais de leite de ternura humana para viver em uma amarga realidade. Não gostaria de agir com falsidade e nem ganhar sem merecer. Mas não havia outra saída. Tudo que lhe prometeram era falsificado como um vinho barato e mal feito. Um gosto amargo desceu por suas entranhas identificando que aquelas sensações também eram suas e tinha que aceitá-las. Conteve-se. As coisas não acontecem por acaso, pensou. Talvez fosse essa a hora de transformar seu mundo em lugar mais belo e mais doce.

Uma faísca de ânimo passou por seus olhos fazendo-os piscar e retornar a sua crua realidade. Estava esgotada e seu tempo na cidade luz era de poucas horas. A nuvem solitária deveria tomar outro rumo, buscar outros vales e colinas, diluir-se em algum mar longe dali. Quem sabe aliada a um oceano pudesse encontrar o que lhe faltava: poder.

Caminhou até sua única acolhedora: sua cama. Envolveu-se nos lençóis que havia desprezado, e aninhou-se como um pássaro de asas quebradas, sem forças para voar. Adormeceu novamente em meio ao travesseiro úmido de sua dor.

A moça de asas quebradas queria ser recuperada por um anjo bom que lhe emprestaria suas asas e juntos voariam para bem longe dali rumo ao encontro do amor e da paz.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

Adele - O Bolo

Sua mãe sempre dizia que não havia nada mais complicado do que a arte de cozinhar, principalmente, no preparo de massas. Para dar certo, era preciso bom senso para selecionar todos os ingredientes; atenção no momento de dosar a medida certa de cada um deles, muito cuidado na hora de misturá-los; intuição para perceber o momento preciso em que o bolo estivesse pronto.

Com a cautela de um aprendiz na execução dos seus primeiros trabalhos, Adele experimentava seu poder na culinária. Colocara todas as recomendações sugeridas na panela, misturando-as suavemente em fogo brando. Depositara em seu preparo uma voluptuosa esperança de ver o seu bolo crescer forte e saudável.

Com um simples movimento da mão _ quando batia os ovos ou manuseava o recheio _ ela operava a transformação das substâncias; a matéria tornava-se um ser que pulsava vida. Da agilidade no contato com a mão; a massa, ao ser amassada, ganhava um novo valor. Era um momento mágico, cheio de doce ansiedade.

No entanto, com pressa de fazê-lo bem feito, Adele não tivera paciência o suficiente para esperá-lo atingir sua plenitude. Ao sair do forno, o bolo saiu timidamente, quase sem fazer barulho. Murcho, indefeso e sem vida. Contemplando-o, ela suspirou. Em suas mãos jazia apenas um corpo inerte. Estéril por dentro, cheio de uma pálida indiferença.

Ela só pensava no que fizera de errado. Esquecera alguma coisa? Será que a combinação dos ingredientes não tinha sido a mais adequada? Ou será que faltara uma xícara a mais de decisão? Ou quem sabe, uma pitada a mais de confiança seria o diferencial?

As dúvidas continuaram e lembrou-se que sua mãe havia esquecido de dizer que talvez aquela fosse a melhor maneira dela fazer o bolo. Adele se questionava se havia uma única maneira de prepará-lo “corretamente”. Naquele instante, ela percebia, com muita clareza, que havia também acertado em alguns pontos. Talvez, ela tivesse que encontrar a "sua maneira" de fazer a receita.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Adele - A Rosa Branca

As espumas cobriam o corpo, deixando pequenas mostras de seus contornos a vista. Contemplando o corpo nu, Adele percebia que o contraste do branco da pele com o vivo vermelho dos cabelos formava uma harmoniosa composição. Era uma flor desabrochando em volúpia. Era rosa. Rosa bela, rosa branca. Olhava com os olhos de uma amante exigente; os olhos presentes e inquietos. Mirando-se na água, apaixonava-se por sua imagem refletida.

Durante o banho, ela se acariciava como uma mãe zelosa. Aquelas primeiras carícias eram um gesto de amor. O acolhimento do filho faminto ao seio materno. Os braços enlaçando o seu corpo de fêmea como um refúgio e proteção. Fechava os olhos para se entregar inteiramente a esse deleite. Era o desejo explodindo em sua carne.

Uma perturbação a invadia por inteiro. Seu corpo ardia e um comichão corria pela espinha. Um doce cansaço a envolvia ao sentir a leve pressão de suas mãos. Eram cócegas provocadas pelo roçar dos dedos dentro de sua alma. A verdadeira fruição da liberdade.

Soltou um espasmo, lânguido e longo. Ela conseguira atingir o interior de si mesma. Conseguira explorar as suas mais profundas e secretas trevas.

Não havia resistência. Havia apenas um alegre abandono. Uma febre que a libertava temporariamente. Mágica e ao mesmo tempo assustadora.

Deixou-se ficar abandonada na água, quieta; sentindo-se acolhida por aquele abraço morno durante um tempo. Levantou-se da banheira calmamente e vestiu o roupão. Era só ela. Nada poderia substituir esse encontro amoroso consigo mesma. Estava feliz. Liberta. Era isso que importava.

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Tina - O final de semana no quarto

O quarto em que se encontrava estava abafado. Abriu os olhos e ainda sentia uma dor dilacerante, porém muito menor da que sentia antes de dormir. O suor escorria pelo seu rosto e sentia a camiseta toda molhada grudada em seu corpo. Os lençóis exalavam o odor de sangue que impregnava o ar. Um turbilhão de pensamentos deixavam sua cabeça mais quente ainda que a temperatura do quarto. A dor emocional era infinitamente maior em comparação àquela no seu útero ensanguentado. Tentou manter a calma, mas o calor lhe deixava mais agoniada, além de lhe tirar qualquer resquício de força para levantar e tomar um banho, nem um grito chamando por sua amiga conseguiria.

O que lhe pareceu uma eternidade foram apenas os dez minutos que Daiane levou indo até a cozinha fazer uma compresse para resfriar a amiga que ardia em febre. Tina ouviu a porta do quarto ranger. Fui buscar gelo e água, você tava ardendo em febre. Mas acho que está passando, você tá toda molhada. Não precisa ficar nervosa, logo logo passa e tudo vai ficar bem, viu?

Tina escutava aquela voz tão querida e se sentiu mais segura, a calma lhe voltava em doses homeopáticas, imaginava que cada palavra de apoio naquele momento era um remédio que a livraria do castigo da morte. Obrigada por tudo! Daiane ficou ao seu lado até o dia seguinte. Fez sopa, deu banho, e se esforçou para se transformar numa fortaleza e dar o apoio necessário à amiga. Foi assim até o domingo, quando finalmente cessou a hemorragia e Tina conseguiu se levantar.

Na noite anterior viveu um pesadelo. A culpa era o sentimento dominante, sentiu que seria castigada pelo seu ato o resto da vida, era uma assassina e sabia que merecia pagar pela vida que roubou.



Quando a poeira baixou e o ar se tornou calmo de novo, a menina, com um sorriso no rosto, perguntou em tom doce: Mamãe, por que eu não nasci?

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Adele - Domingo

Num olhar mais atento na prancheta, ela notou pequenos esboços se formarem sob os croquis. Traços simples, como os de uma criança, iam se delineando nas folhas de papel. Era uma gatinha. Ela corria, brincava e pulava alegre; Adele acompanhava com o olhar atento os movimentos do filhote. Uma mancha vermelha ia tingindo aos poucos os desenhos que livremente preenchiam o longo espaço das folhas. Um filete vermelho como sangue. Púrpura.
Adele esfregara os olhos naquele instante. Quando tornou a olhar novamente as folhas, reparara que eram as mesmas de antes, brancas e inabitadas de sempre. Talvez fora o cansaço que a deixara naquele estado de sonolência.
Estava tão imersa em seus pensamentos que havia esquecido por completo o que fazia, só voltou a realidade quando percebeu que derrubara a caneta vermelha no chão. Aproveitou o momento e se espreguiçou tranqüilamente como uma gata manhosa. Precisava de uma xícara de café urgente. Levantou-se, dirigiu-se até a cozinha e tomou um grande gole com vontade. Olhou para o relógio e percebeu que era tarde.
Voltou para a prancheta e olhou meio desatenta para os croquis espalhados. Tinha concluído boa parte do projeto. Faltavam apenas dois cortes da planta. Seus trabalhos sempre rendiam mais a noite do que na parte da manhã, momento em que não estava completamente desperta. O silêncio da noite ajudava-lhe a se concentrar melhor. No entanto, por mais que tentasse continuar o trabalho, seus pensamentos tomavam um outro caminho, se perdendo em meio a uma névoa branca que invadia de tempos em tempos a estrada.
Adele odiava os domingos. Procurava sempre preencher com alguma ocupação as horas vazias do dia. Depois do almoço, ela tinha ido andar um pouco pelo centro da cidade, quando vira uma imagem que a consternara. Vira uma gata ainda filhote, ferida, os bigodes queimados. Mancava com a pata machucada e parecia miar de fome.
Procurava não pensar muito no assunto, mas com grande insistência a imagem conseguia ludibriá-la e reaparecia com mais força em sua mente. Aquela imagem que não durara mais do que dois minutos, provocara nela uma dor aguda, lacerante no peito tal como o corte afiado da faca na carne. Sentia medo. Havia o medo de continuar sozinha como aquela gata na rua. Assustada e ferida. Abandonada a sua própria dor.

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Tina - A menina

Caída ainda estava na areia morna e macia, havia desmaiado. Um vento forte soprou, as pequenas partículas encontravam a pele já um pouco ressecada de seu rosto. O atrito a despertara, sentia que os grãos queriam penetrar-lhe, que eles pretendiam se fundir à sua massa corporal e formar um novo rosto, mais compacto, tamanha era força com a qual lhe atingiam. Quis dar-se conta da realidade que a rodeava, mas àquele momento a velocidade do vento era tanta que a pressão lhe dificultava o movimento das pálpebras. Notou o barulho ao seu redor, os uivos da ventania lhe remetiam às tardes de temporal na sacada do seu apartamento, quando apaixonada era a ouvinte da conversa dos ares. Tentou decifrar o que era conversado, mas de nada adiantava o seu esforço, vinham ventos de todas as direções, como se fossem várias vozes ao mesmo tempo querendo lhe dizer coisas simultaneamente. Ininteligível.

Subitamente as correntes de ar se calaram. Tina pôde abrir os olhos e enxergar, ainda em meio a cortinas de poeira que baixavam, uma criança. Tratava-se de uma pequena menina, toda vestida de domingo, com vestidinho de rendas azuis extremamente claras e fitinhas na mesma cor, amarradas nos cabelos castanhos ondulados que lhe batiam à cinturinha fina e marcada por uma faixa branca com detalhes em florezinhas em vários tons de azuis. Percebeu que a menina, apesar de aparentar nove ou dez anos, já estava formando um corpo de mulher. Aquilo lhe dava mais doçura ainda, pois os contornos da cintura, realçados com a faixa, lhe deixavam parecida com uma pequena boneca de porcelana.

Seu rostinho era ainda angelical com bochechas realçando sua inocência e doçura. Aqueles traços não eram estranhos à Tina, aquela menina tinha a fisionomia de alguém próximo a ela. Buscou em sua memória as imagens semelhantes àquele quadro que ali se formara, uma encantadora garota de vestidinho com plantas de espinhos verde-escuras ao fundo. O fundo verde lhe trouxe a lembrança da grama da pracinha onde os pais a levavam para brincar nos finais de semana. Lembrou-se da foto que sua mãe mantinha no porta-retrato de sua cabeceira. Ao pensar na mãe, conseguiu finalmente reconhecer na menina os traços de sua família. Agora que não havia nada entre as duas, a constatação lhe pareceu óbvia. Sim, não havia dúvidas. Aquele pequeno ser, inegavelmente, fazia parte de sua própria família. O grau de parentesco era muito próximo.

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

Marie – O amor é benigno

“O amor é benigno; o amor não é inveja, o amor não se vangloria, não se ensorbebece... Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta”. Coríntios 13:4:7 - Leila e Jean convidam para seu casamento...Marie parou a leitura e começou a observar aquelas letras em relevo no cuidadoso convite grande e prateado que revelava um amor sem limites de um casal prestes a se unir até que a morte os separasse. Havia ainda um cordão prateado com uma pedrinha brilhante em cada ponta que envolvia todo o convite formando um gracioso laço que unia as “peças”, levando o observador a uma simbologia lúdica de que aquele casal estariam sempre juntos, “amarrados” pelo amor, pensou.
Uma lágrima pesada de dor caiu sobre o nome do casal, borrando de sofrimento um convite para o amor, para a alegria, para a celebração. Não para Marie. O convite havia feito com que ela entrasse numa parte escondida de si mesma. Numa caixa interna fechada, vedada, mas que pelo visto, não havia sido totalmente lacrada, a caixa estava inacabada e o convite fora a chave que faltava para rompê-la. A mulher forte, decidida, a profissional competente e determinada estava agora com os olhos marejados feito criança, frágil num barquinho de papel, naufragado, precisando ser ancorado. Estava cheia de saudades, de lembranças, recordando um cristal que se espatifara cujos pedacinhos haviam sido perdidos ao longo do tempo. E não havia como uni-los novamente.
Lembrou-se de Pierre convidando-a para o primeiro encontro em Montmartre. O passeio de mãos dadas visitando as galerias de arte, o bate-papo com os artistas falando sobre suas obras. Os dois gostavam das mesmas coisas. O abraço e o primeiro beijo apaixonado na calçada florida do Jardin du Luxembourg fazia pensar o que seria mais doce naquele momento, as flores ou as intenções daquele casal. Eles expressavam a linguagem do amor, do amor benigno, do amor que tudo crê.
“Tão doce parecia o amor naquela manhã de abril, quando trocamos o primeiro beijo ao lado do espinheiro. Tão estranhamente doce que, por isso mesmo, achamos que esse amor não mudaria jamais”. – Marie recitou quase sem voz o poema do poeta inglês Robert Bridges, enxugando os olhos ainda molhados nas faces brilhantes e vivas da mulher bonita e triste de amor.
Lá fora uma chuva forte continuava a molhar a alma de Marie, que sempre abria as janelas a pedido de Pierre: “abre, gosto de sentir o cheiro e o barulho da chuva”, ele dizia e a abraçava para que pudessem apreciar aquele momento mágico.Marie foi à janela, respirou fundo e abriu as persianas da varanda. Ultimamente não estava desfrutando muito daquele espaço da casa, pois faltava alguém para apreciar com ela a linda vista de Saint-Louis.Parou de enxugar a chuva de seu rosto, deixando-a misturar com a água que caia do céu. Talvez, assim pudesse lavar a alma, refrescar o coração, acalentar-se com a natureza que era a única a assistir sua dor, sem cobrá-la por isto.
Ficou ali perdida na sua tempestade interna, desprotegida de si mesma. Precisava permitir a si mesma romper a caixa de um amor que não suportou vê-la na sua extravagância fantástica de mulher. Um amor que não acreditou que a moça também era independente nos seus afazeres e competente como profissional. Um amor que não perdoou Marie de sua voracidade ao desvendar caminhos estreitos, pelo simples prazer da descoberta. O amor de Marie e Pierre havia morrido, acabado, chegado ao fim. O cristal se rompera, o laço da união havia se desfeito. Sobrara um nó na garganta, umas lágrimas de cristal no rosto, um sonho inacabado. Mais uma história na vida de Marie, que tinha muitas para contar.
Mas ela estava feliz pela amiga. Sabia que iria encontrar um novo amor tão benigno quanto o dela. E não era inveja, era desejo de continuar a acreditar no amor. Por que o lema de Marie sempre fora o de não desistir nunca. Então, preferiria ser feliz a ser triste. Iria encontrar outro cristal para cuidar e amar verdadeiramente.
O telefone tocou estridentemente. Era Leila, radiante como sempre, confirmando o convite de Marie para o jantar em sua casa.
Marie prepararia um jantar do tamanho do amor deles, o melhor da vida deles! brincou.Um jantar especial para um casal que acreditava que o amor tudo podia. "Le voilà!"

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Adele - A Caçada

Para Adele, pensar é sentir. Sentir tudo através dos sentidos. Os seus pensamentos, que eram frutos de suas sensações, estavam concentrados na fruição plena de todas as coisas. Enquanto eles não estivessem saciados, ela não estaria satisfeita.
Naquele momento, estava faminta, seu corpo gritava insaciável por carne humana. Apesar da fome, ela sabia que precisava escolher muito bem a sua vítima, não provaria qualquer alimento. Podia sentir no ar o aroma adocicado do sangue dos homens. O cheiro a embriagava, atordoava os sentidos e lhe provocava vertigens. Era o refresco para sua alma sedenta num dia de calor.
O tempo todo permaneceu alerta, como um cão vigilante que guarda a casa. Olhou ao redor e avistou, dentre muitos homens, um que lhe pareceu a presa perfeita. Cobiçou-o com desejo por um bom tempo. Espreitou a sua vítima como uma cobra prestes a dar o bote e se aproximou cautelosamente como se não quisesse assustá-la ou intimidá-la. Era uma vampira.
Chegou ao bar, pediu uma vodca e bebeu com vontade, tranqüila, imperturbável. Concentrou o seu olhar na bebida. Sabia que estava sendo observada. Desejada.
– Está sozinha?
Ele tinha mordido a isca. Era o seu dia de sorte!
Adele virou-se em direção ao homem ao seu lado. Não escaparam aos seus olhos afiados os detalhes das mãos grandes e fortes, o caimento da roupa ao marcar o contorno preciso do corpo viril, a barba rala por fazer, o desenho dos lábios finos e avermelhados, os cachos desalinhados que compunham a bela moldura do rosto, o pescoço branco-macio. Ela sentiu um leve estremecimento percorrer o corpo, como uma febre passageira, uma moleza depois de um banho morno.
– Não. Mostrou o copo cheio.
Caminhou para o lado oposto ao dele numa tentativa de sair. Ele notando o movimento, segurou sensualmente o braço da sua companheira. O contato daquelas mãos no corpo dela, acionara o botão vermelho-alerta, que ligava a descarga de eletricidade e fazia a energia percorrer toda a maquinaria do corpo humano. Como se tivesse aberto a caixa de Pandora, encontrou ali sentimentos antes adormecidos, ansiosos para se verem libertos. Sentiu um turbilhão de sensações. Um comichão correr pela espinha. A dilatação das artérias aumentar. O tremor desgovernado nas pernas. Nos braços. As mãos ficaram frias. O corpo suado. O estômago revirado. A boca seca. A garganta entalada. A visão embaralhada. A cabeça transtornada. As batidas do coração. Aceleradas. A respiração curta. Apressada. Uma falta de ar... Um terrível sufocamento.
Ele sorriu para ela.
– Ele é ciumento?
– Geralmente sim. Mas ele me liberou por hoje.
Ele se aproximou dela e segurou suas mãos.
– Dança?
– Sim. Mas a noite não está boa para dançar.
– Não? Então está boa pra fazer o quê?
Ela olhou diretamente nos olhos dele. Maliciosamente.
– Para aproveitar melhor a companhia das pessoas, por exemplo.
– Talvez esse não seja o melhor lugar para apreciar uma boa companhia.
– Alguma sugestão?
Ele sorriu triunfante.
– Eu te mostro.
Puxou-a pela cintura com firmeza e conduziu-a até a saída. Pagou as bebidas. Saíram do bar e dirigiram-se até o carro dele.
Era o seu dia de sorte. Naquela noite, ela era a predadora.

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Marie – “Um sonho de jardim”

A porta de entrada era gigante, pesada e difícil de abrir. Ela respirou profundamente e empurrou-a. Valeu o esforço, pois se deparou com uma bonita casa que abria para uma enorme escadaria que dava para os quartos. Ao fundo, via-se um jardim de inverno, rico em flores e perfumes. O assoalho da área externa estava levemente úmido, culpando o orvalho que caiu durante a noite e que também provocava, com a umidade, um delicioso aroma que a troca de perfumes entre as flores proporcionava.
Marie subiu para um dos quartos, de onde se podia ver o divertido e colorido jardim, repleto de madressilvas, jorrando mel e com um perfume bem doce e evocativo, característica da flor, que circundava todo o local. Que sensação boa!
Ainda no jardim observou um girassol gigante, altivo, a planta mais alta dali. “Parece uma flor de sol”, sorriu. As verônicas rastejavam pelo riozinho artificial, deixando partir suas florezinhas na água, parecendo dizer adeus. Marie ficou ali olhando fixamente aquelas flores caindo na água e seguindo um caminho qualquer... Ficou pensando como seria bom poder se despedir de maneira bonita, pois, para ela, dizer adeus, se afastar, lhe parecia tão difícil de fazer. Disse baixinho que estava aprendendo com as flores a graça de dizer adeus! Sorriu satisfeita.
Uma pétula de margarida voou até Marie levantando seus pensamentos para a direção de onde elas estavam. Num canto do jardim, vistosas em um grande ramalhete vivo, as margaridas estavam despertas com a luz do dia que entrava pelo teto de vidro, parecendo chamar Marie para brincar de “Bem me quer, mal me quer”. Lembrou-se dos tempos da menina doce e romântica que fora. Nada mais. Marie era assim, humilde no seu vestido rosa de babado que gostava de vestir e sonhar. Se divertia fazendo coroas de margaridinhas para se “casar”...Adorava fazer poesias de amor.
Finalmente o olhar de Marie fixou-se na flor mais popular do jardim: “la rose”. A flor do amor. Que cheiro bom, Marie pensava enquanto saía da grande janela e caminhava pelo quarto de cortinas florais com papel de parede num tom creme suave. O vento lá fora parecia tocar uma música para as cortinas de tecido leve e transparente se envolverem numa dança sensual. Marie acomodou-se satisfeita na cama. Fechou os olhos, precisava aproveitar aquelas sensações tão boas, tão raras. Queria ficar ali, envolvida nas suas sensações e entregue aos prazeres que tanto buscava sentir.
Naquela casa, estava se permitindo ser quem era. Estava cansada de sempre estar pronta para todos, ser de todos e não ter nenhum ser para estar. Cansada de agir calmamente e com delicadeza em momentos em que estava irritada e disposta a criticar o que quer fosse...Agora podia ao menos estar consigo mesma. Iria aproveitar cada pedacinho da segurança daquela casa, da cama macia e fofa. Estava protegida como um pardalzinho recém-nascido no ninho preparado por uma mãe cuidadosa. Depois iria ao jardim, tocar as flores e sentir o perfume delas de pertinho. Já estava se comprometendo a não cortar e nem colher nenhuma planta. Afinal, a beleza estava ali, viva.
Tudo transbordava vida e Marie queria viver também. Viver de verdade.Queria ser como o jardim, com suas raízes fortes unidas na alegria de viver.
Um vento mais forte empurrou a janela, enrolando as cortinas, o que ficou parecendo uma briga de tecidos. Marie despertou num súbito do seu mais florido sonho. Sentiu um friozinho percorrer seu corpo tão desprotegido. Abriu os olhos doces e amendoados e percebeu pela janela que uma tempestade anunciava que seu dia não seria um sonho de jardim...Suspirou profundamente. Tinha muito a fazer e a desvendar no seu jardim real. Mas decidiu que não seria uma camponesa qualquer naquele dia.
Levantou-se vestida na sua camisola branca com babados florais, cobriu-se com um costume longo e azul marinho e caminhou lentamente em direção aos apetitosos “fraise” que estavam na cozinha.
Ainda tinha um tempo para degustá-los e então, iria se permitir a este prazer, pelo menos na primeira hora daquela manhã cor de chumbo. Ser ela mesma.

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Adele - O buraco negro

Naquela noite, Adele não conseguia dormir por mais que tentasse e se revirasse na cama. Uma grande inquietação, tirava-lhe o sono. Dúvidas terríveis se instalavam sorrateiramente em sua mente como os zumbidos dos pernilongos no dia de calor. Ela se levantou. Estava num estado de torpor e embriaguez, as perguntas não se calavam e giravam na sua cabeça num grande redemoinho.
O medo, animal feroz e faminto, se aproximava. Ele invadia os quartos amplos do seu labirinto, perseguindo-a incansavelmente pelos corredores do seu inconsciente. Queria esmagá-la com sua pata gorda-gigante para alimentar-se de suas forças. O medo aumentava todos os dias e estava aniquilando-a como um buraco negro dentro da sua existência. Ela sabia apenas que ele não conseguiria dominá-la.
De repente, lembrou-se de um texto que lera de Camus outro dia, que dizia que a morte era uma questão verdadeiramente existencial, pois todos os dias as pessoas optavam ou não pela vida. Ele atribuía alguns motivos para as pessoas optarem pelo desejo de não continuarem vivas, e o principal deles era a falta de significado que a vida lhes proporcionava. Se de fato as pessoas optavam diariamente pela vida, por que algumas prolongavam por anos essa dor de existir infinitamente? Afinal, o representava a vida? Que sentido ou significado poderia ser atribuído a ela? No momento, Adele não tinha respostas para estas e para muitas outras perguntas.
No entanto, ela podia sentir o vazio, o silêncio interior consumindo-a por dentro. A nudez fria da solidão cortava o seu corpo como a rigidez de uma faca. Era uma sensação de estrangulamento. Por longas horas. Prolongada infinitamente. Como despertando de um sono, sentou-se na cama e começou a chorar.