“O amor é benigno; o amor não é inveja, o amor não se vangloria, não se ensorbebece... Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta”. Coríntios 13:4:7 - Leila e Jean convidam para seu casamento...Marie parou a leitura e começou a observar aquelas letras em relevo no cuidadoso convite grande e prateado que revelava um amor sem limites de um casal prestes a se unir até que a morte os separasse. Havia ainda um cordão prateado com uma pedrinha brilhante em cada ponta que envolvia todo o convite formando um gracioso laço que unia as “peças”, levando o observador a uma simbologia lúdica de que aquele casal estariam sempre juntos, “amarrados” pelo amor, pensou.
Uma lágrima pesada de dor caiu sobre o nome do casal, borrando de sofrimento um convite para o amor, para a alegria, para a celebração. Não para Marie. O convite havia feito com que ela entrasse numa parte escondida de si mesma. Numa caixa interna fechada, vedada, mas que pelo visto, não havia sido totalmente lacrada, a caixa estava inacabada e o convite fora a chave que faltava para rompê-la. A mulher forte, decidida, a profissional competente e determinada estava agora com os olhos marejados feito criança, frágil num barquinho de papel, naufragado, precisando ser ancorado. Estava cheia de saudades, de lembranças, recordando um cristal que se espatifara cujos pedacinhos haviam sido perdidos ao longo do tempo. E não havia como uni-los novamente.
Lembrou-se de Pierre convidando-a para o primeiro encontro em Montmartre. O passeio de mãos dadas visitando as galerias de arte, o bate-papo com os artistas falando sobre suas obras. Os dois gostavam das mesmas coisas. O abraço e o primeiro beijo apaixonado na calçada florida do Jardin du Luxembourg fazia pensar o que seria mais doce naquele momento, as flores ou as intenções daquele casal. Eles expressavam a linguagem do amor, do amor benigno, do amor que tudo crê.
“Tão doce parecia o amor naquela manhã de abril, quando trocamos o primeiro beijo ao lado do espinheiro. Tão estranhamente doce que, por isso mesmo, achamos que esse amor não mudaria jamais”. – Marie recitou quase sem voz o poema do poeta inglês Robert Bridges, enxugando os olhos ainda molhados nas faces brilhantes e vivas da mulher bonita e triste de amor.
Lá fora uma chuva forte continuava a molhar a alma de Marie, que sempre abria as janelas a pedido de Pierre: “abre, gosto de sentir o cheiro e o barulho da chuva”, ele dizia e a abraçava para que pudessem apreciar aquele momento mágico.Marie foi à janela, respirou fundo e abriu as persianas da varanda. Ultimamente não estava desfrutando muito daquele espaço da casa, pois faltava alguém para apreciar com ela a linda vista de Saint-Louis.Parou de enxugar a chuva de seu rosto, deixando-a misturar com a água que caia do céu. Talvez, assim pudesse lavar a alma, refrescar o coração, acalentar-se com a natureza que era a única a assistir sua dor, sem cobrá-la por isto.
Ficou ali perdida na sua tempestade interna, desprotegida de si mesma. Precisava permitir a si mesma romper a caixa de um amor que não suportou vê-la na sua extravagância fantástica de mulher. Um amor que não acreditou que a moça também era independente nos seus afazeres e competente como profissional. Um amor que não perdoou Marie de sua voracidade ao desvendar caminhos estreitos, pelo simples prazer da descoberta. O amor de Marie e Pierre havia morrido, acabado, chegado ao fim. O cristal se rompera, o laço da união havia se desfeito. Sobrara um nó na garganta, umas lágrimas de cristal no rosto, um sonho inacabado. Mais uma história na vida de Marie, que tinha muitas para contar.
Mas ela estava feliz pela amiga. Sabia que iria encontrar um novo amor tão benigno quanto o dela. E não era inveja, era desejo de continuar a acreditar no amor. Por que o lema de Marie sempre fora o de não desistir nunca. Então, preferiria ser feliz a ser triste. Iria encontrar outro cristal para cuidar e amar verdadeiramente.
O telefone tocou estridentemente. Era Leila, radiante como sempre, confirmando o convite de Marie para o jantar em sua casa.
Marie prepararia um jantar do tamanho do amor deles, o melhor da vida deles! brincou.Um jantar especial para um casal que acreditava que o amor tudo podia. "Le voilà!"